Hæresis Psicanálise

Espaço Hæresis de Psicanálise com crianças e adolescentes: Da Ética de Françoise Dolto aos Autismo(s)

Por Hæresis Psicanálise em 29/01/2018 13:44

Espaço Hæresis de Psicanálise com crianças e adolescentes: Da Ética de Françoise Dolto aos Autismo(s)

Coordenação: Cirlana Rodrigues

 

Em 2017, inauguramos o Espaço Hæresis de Psicanálise com crianças e adolescentes trabalhando com a Atualidade (ou não) da clínica de Françoise Dolto em convergência com os fundamentos da psicanálise de Jacques Lacan. Como todo campo epistemológico, o trabalho da psicanalista francesa se firmou não apenas pela importância de suas noções e técnicas, mas também pelo estabelecimento de uma ética na clínica psicanalítica com crianças e adolescentes. Da importância, destaco alguns pontos:  a noção  de “imagem inconsciente do corpo”; os fundamentos para uma clínica psicossomática nos mostram que à guisa dos sintomas que apresentam uma criança e um adolescente impõe-se a leitura do enodamento corpo e linguagem; a noção de castração edipiana em Dolto merece ser lida para além das limitações da teoria do desenvolvimento psicossexual para o sujeito contemporâneo, mas lida como a distância inscrita pelo simbólico entre o sujeito e o objeto causa de seu desejo – entrada da linguagem entre o pequeno e sua imediata satisfação que franqueia seu percurso de subjetivação, de tornar-se sujeito do desejo; a direção de tratamento que se estabelece a partir da fala da criança e do adolescente e pela imprescindível escuta da estrutura familiar. Sobre o estabelecimento de uma ética como direção de tratamento, Françoise Dolto tornou sua clínica com crianças e adolescentes uma experiência ética, de escolha do analista em reconhecer sujeitos, modo pelo qual se apresentava diante de uma criança e de seu sofrimento.

Para a psicanálise, a clínica com a criança e com o adolescente nos coloca a trabalho das construções e elaborações sobre essa clínica, na medida em que a infância como um percurso sempre colocará em questão todas as certezas de um suposto saber no campo psicanalítico. Dolto nos faz ver que esse trabalho não se realiza sem uma escolha pela escuta da criança e do adolescente, onde mesmo a interpretação só pode ser dita a partir dos ditos (e não-ditos) pelos pequenos sujeitos, reconhecendo que crianças e adolescentes se constituem enodando-se ao seu desejo.

Em tempos de controle da infância, de apagamento do corpo e da linguagem pela imaginária insistência em um organismo (um bebê e uma criança são um cérebro) e pelo controle social (todo adolescente é um infrator em potencial), estar com uma criança e com um adolescente é colocar a clínica a trabalho a partir desse encontro reconhecendo que eles são sujeitos (em constituição) de desejo e direitos, sendo preciso dar-lhes a fala, colocar seus ditos em circulação. Ainda, Françoise Dolto nos ensina algo mais urgente para nossos tempos, tempos esses em que todos falam (mesmo que na dimensão imaginária que a fala carrega): a dama francesa, na mesma escolha ética de Freud e Lacan, nos lembra que para que um sujeito possa advir é preciso que o outro o escute, ali onde tudo manca.  Escuta apagada em nossos tempos, apagamento que é estratégia de controle implícita no “todos têm direito à fala”.

Diante da discussão clínica realizada no Espaço, as noções estudadas e os casos discutidos, a atualidade urgente de Françoise Dolto é mesmo esta: como psicanalistas, devemos escutar os sujeitos e, mais ainda, essa escuta é constitutiva em crianças e adolescentes, parte estrutural de seu percurso de subjetivação. Ao apostar que bebês, crianças e adolescentes falam, Dolto apostava em uma língua da criança, do bebê, em uma língua da infância a ser, pelo adulto/terapeuta, traduzida, tradução essa que comporta os rostos, os corpos, os sons, os movimentos, as personagens da vida, suas palavras, seus desenhos, seus afetos e a dinâmica pulsional de cada criança, de cada bebê, de cada adolescente. Já uma inversão interessante, de um adulto a ser capturado pela língua da criança e não apenas a criança a ser capturada pela língua transmitida como herança simbólica, como estrutura do inconsciente, pelo Outro: desde sempre, há algo na infância de resistência.

Nessa direção ética, de estar com a criança e com o adolescente, pela escuta de seus impasses, de seus chiados constitutivos, de suas lalações, de suas vocalizações, de seus enunciados, de seus ditos, de sua ascensão ao discurso, de seus desenhos, de suas montagens e de seu brincar, de sua sexualidade, de sua tomada da palavra, do silêncio de sua voz, o Espaço Hæresis de Psicanálise se mantém, para os trabalhos de 2018.  E, o que foi exposto, será colocado a trabalho pelos Autismo(s).  Signo contemporâneo do governo da infância, do apagamento da subjetividade, da intolerância da diversidade, os autismo(s) também colocam a clínica psicanalítica a trabalho e não apenas no sentido de responder aos questionamentos do tipo “a psicanálise não é tratamento com comprovação científica para o autismo”. Há uma provocação que cada criança e adolescente nas vias de seu autismo nos coloca como psicanalistas: se nosso trabalho ético é escutar sujeitos nos arremedos de seus desejos, como escutar aquele que não (nos) fala, não nos endereça a fala? Jacques Lacan insistirá que autistas falam (são sujeitos do desejo), nós é que não os escutamos. Ainda, Lacan nos lembra que escutar também forma uma palavra e o autista nos ensina isso.

O Espaço Hæresis de Psicanálise com crianças e adolescentes 2018  irá trabalhar em torno da clínica psicanalítica com os Autismo(s) e esse plural  inscreve a aposta na dimensão topológica de uma condição subjetiva que foi enredada de modo enganoso sobe a égide do signo TEA (Transtorno do Espectro Autista): esse espectro não amplia o campo da diversidade de possibilidade de emergência de sintomas como quer a ciência (SOUZA, 2016), e menos ainda de sujeitos, esse espectro é fantasmagórico, um assombro que apaga sujeitos, apaga singularidades, um corvo.

Mantendo o modo de trabalho estabelecido, iremos circular tanto pela experiência teórica atualizada pela obra de Angela Vorcaro e Jean-Claude Maleval e instaurada no campo psicanalítico pela proposição do autismo como uma quarta estrutura subjetiva (e clínica, na medida em que essa estrutura pode apresentar-se como uma experiência de sofrimento particular), como pela experiência clínica de cada participante com crianças e/ou adolescentes nas vias de um autismo. O trabalho aqui proposto fará ressonância com a investigação em andamento no projeto de pós-doutorado (UFMG) “O que a Voz no autismo nos ensina sobre a afirmação da negação: uma quarta negativa? ”

 

Referências Bibliográficas

SOUZA, C. R. de. A amarração sinthomática nas vias de um autismo. Estilos da Clínica, Brasil, v. 21, n. 3, p. 599-617, dec. 2016. ISSN 1981-1624. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/estic/article/view/131167/127597>. Acesso em: 04 jan. 2018.

 


Dos encontros: Realizaremos encontros mensais, aos sábados, das 13:30 h às 16:30 h, no espaço da Hæresis Associação de Psicanálise, localizado à  Rua Francisco Vicente Ferreira, 282 – Uberlândia(MG). Datas previstas: 17/03; 28/04; 26/05; 23/06; 18/08; 22/09; 06/10; 10/11.

Informações sobre valores e contato com responsável pelo Espaço, pelo e-mail: haeresispsicanalise@gmail.com

Vagas Limitadas.

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