Espaço Hæresis Sobre Escritas

Coordenação: Cirlana Rodrigues

 

Escritas são caligrafias, letras, signos,  alfabetos, abecedários, escrituras, cálamos, estilos, penas, aquilo que se escreveu,  escritos, textos, poemas, escreveduras,  escriturações, tradições, mitos, arte de escrever à mão, arte de cerzir, pinturas, esculturas, cifras, leis, significantes, litoral, traço.

Os sumérios inventaram a escrita como um enigma, seus símbolos, seus traços precisavam ser decifrados, lidos. Foi inventada porque comerciantes queriam controlar suas vendas. Há quem conte que dos desenhos rupestres, nas cavernas, os traços que se cruzavam foram as primeiras experiências de escrita. Nenhuma criança vai escrever sem antes cruzar os traços, fazer rabiscos, vai passar ao escrito quando a mão do outro, sobre a sua mão, conduzir seu traço na ponta do lápis sobre a folha do papel: marca da escrita como experiência constitutiva. Na era digital, escrevemos sem traço.

Sigmund Freud funda a psicanálise como experiência de fala escutando e escrevendo. Foi um escriba e basta ver a imagem de Freud e sua letra: escreveu textos, redigiu as leis da psicanálise. De sua intenção científica, na escrita psicanalítica há o espírito literário cuja estrutura é ficção. Jacques Lacan, lendo Freud e buscando o traço da psicanálise tamponado pelas versões imaginárias e enganosas, falou e escreveu. Milán-Ramos (2007; 2009) contrapondo-se à dicotomia entre seminários e escritos de Lacan, propõe pensar em Lacan passando pelo escrito, colocando em jogo, na transmissão da psicanálise, o enlaçamento entre o dito e o escrito, em um estilo que torna a leitura das escritas lacanianas uma experiência subjetiva, não de mera compreensão das noções elaboradas. E passar pelo escrito é uma experiência de castração, dos efeitos da letra que passam pelo corpo, onde se lê, se teoriza, se decifra e se inventa em torno da falta que nos causa.

Psicanalistas escrevem a teoria, escrevem a técnica, escrevem seus casos: passam pelo escrito. São antes psicanalistas e não escritores. Freud foi escritor, e Lacan escreveu a seu modo nos Escritos e nos traços de matemas e nós borromeanos que fazia. Jacques Lacan, no Seminário sobre o sinthome (1975-1976) diz: “Joyce é signo de meu embaraço”. A escrita do ego esvaziado de determinações do escritor irlandês fez Lacan se embaraçar em sua escrita borromeana que inventou para dar conta de seu embaraço: cada um funciona como escritor a seu modo, rateia a seu modo. Passam pelo escrito a seu modo, se embaraçam a seu modo. E, para sugerir nosso modo de trabalho, cito Lacan, que insiste: “A psicanálise é outra coisa. Ela passa por um certo número de enunciados. Não está dito que ela leva à via de escrever. O que estou lhes impondo por meio de minha linguagem é que se deve prestar muita atenção quando alguém vem nos pedir, em nome de não sei que inibição, para ser colocado em condições de escrever. Quanto a mim, presto muita atenção quando me acontece, como a todo mundo, de ter alguém me pedindo isso. Não está de modo algum definido que, com a psicanálise, vai se conseguir escrever. Para falar propriamente, isso supõe uma investigação a propósito do que significa escrever” (Aula de 11 de maio de 1976).

A proposta é inaugurar o Espaço Hæresis Sobre Escritas para fazer traço no engodo de nossa intenção de escrever, torná-la uma experiência de subjetivação buscando investigar o “que significa escrever”: passar a outra coisa, passar pelo escrito. Algumas direções: 1) a escrita como um dos “problemas cruciais para a psicanálise”: Freud escritor e Lacan Leitor; 2) as escritas: as frases de início de romance; 3) a poesia e o ato psicanalítico; 4) o estilo de Jacques Lacan; 5) Freud e os casos escritos; 6) Serge Leclaire e os escritos clínicos; 7) questões atuais em torno da “escrita do caso clínico”; 8) Jacques Lacan e a escrita: o que soa, consoa, ressoa e escoa; 9) a escrita  acadêmica e a escrita psicanalítica; 10) psicanalistas escritores; 11) escritores; 12)  Walter Benjamim e Roland Barthes, Michel Foucault e Maurice Blanchot; 13) as narrativas literárias e modalidades subjetivas escritas; 14) imagens fáceis para textos imediatos; 15) o traço do artista: o desenho, a pintura e a escultura; 16) a escrita e o constrangimento… … … Essas direções, para todos os lados, serão enodadas pelos traços, rabiscos, garatujas, letras e textos de cada participante sobre aquilo que não se aprende, mas que insiste em se inscrever e em não se inscrever nas experiências de escritas de cada um.

 

Referências Bibliográficas

MILÁN-RAMOS, J.G. Passar pelo escrito: Lacan, a psicanálise, a ciência – Uma introdução ao trabalho teórico de Jacques Lacan. Campinas: Mercado de Letras/FAPESP, 2007.

______. Passar pelo escrito: anotações sobre o estilo lacaniano. Correio da APPOA, Porto Alegre, n. 177, mar. 2009.p.23-29.

LACAN, J. Seminaire 23, Le sinthome (1975-1976). Disponível em http://staferla.free.fr/.


Dos encontros: Realizaremos encontros mensais, aos sábados, das 13:30 h às 16:30 h, no espaço da Hæresis Associação de Psicanálise, localizado à  Rua Francisco Vicente Ferreira, 282 – Uberlândia(MG). Datas previstas: 03/03; 07/04; 05/05; 02/06; 25/08; 29/09; 20/10; 01/12 (continua em 2019).

Informações sobre valores e contato com responsável pelo Espaço, pelo e-mail: haeresispsicanalise@gmail.com

Vagas Limitadas.