Hæresis Psicanálise

Espaço Hæresis de história e transmissão da Psicanálise

Por Hæresis Psicanálise em 21/02/2017 14:37

Espaço Hæresis de história e transmissão da Psicanálise

Coordenação Aline Accioly Sieiro

Com realização mensal aos sábados, das 8:30 h às 10:00 h, com uma hora e trinta por encontro, perfazendo três horas mensais, com datas previstas para 18 e 25 de março, 08 e 29 de abril, 13 e 27 de maio, 10 e 24 de junho, 12 e 28 de agosto, 16 e 30 de setembro, 21 e 28 de outubro,  04 e 25 de novembro.

No começo tivemos Freud. Formado na escola de medicina da universidade de Viena em 1881, trabalhou em um hospital psiquiátrico em 1883, mas foi só em 1895 que rompeu com as experiências, teorias e hipóteses de outros colegas para enfrentar a construção epistemológica da psicanálise. Nesse mesmo ano, Freud escreveu O Projeto para uma psicologia científica, texto que contém ideias centrais sobre o funcionamento do aparelho psíquico e da noção de memória; essas noções e hipóteses germinais foram desenvolvidas ao longo de muitos anos de trabalho e escrita dos diversos textos que hoje conhecemos e que são a marca da invenção freudiana. O projeto foi deixado de lado temporariamente e em 1900 Freud publicou A Interpretação dos sonhos, O chiste e sua relação com o inconsciente e Psicopatologia da vida cotidiana. Estava fundada a psicanálise, ainda que (o já nomeado professor) Freud não tivesse interlocuções nos meios acadêmicos e tivesse suas ideias rejeitadas. Os textos publicados não tiveram reverberação e a primeira tiragem, de apenas 600 exemplares levou dois anos para se esgotar.

Em busca de interlocutores, Freud deu início, em 1902, a Sociedade psicológica das quartas-feiras. A partir dessa época, Freud colocou em movimento noções que são importantes na psicanálise, de textos, por exemplo, que seriam publicados apenas em 1920, como os conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte, a noção de cura em psicanálise e a importância da transmissão a partir da escrita de caso clínico. Suas ideias não foram muito bem acolhidas e ele era muito criticado e boicotado. Em algumas biografias, ele é descrito nesse tempo como um homem solitário, já que até mesmo muitos adeptos da psicanálise não partilhavam da visão que ele tinha sobre certos conceitos. Muitos aspirantes a psicanálise daquela época não entendiam ou conheciam seus textos, o que causava uma série de mal-entendidos, especialmente sobre a conceito de inconsciente. Desde o princípio temos o mal-entendido e o equívoco como parte da psicanálise, já que nunca parece ser suficiente se tornar psicanalista apenas a partir do estudo teórico. Para tentar dar conta do inconsciente, há um constante trabalho acerca de uma noção impossível de dominar.

Nas atas das reuniões das quartas-feiras, publicadas em português recentemente, podemos acompanhar a construção e o trabalho de transmissão da psicanálise a partir de Freud e dos primeiros psicanalistas. Alguns membros o posicionavam como um ideal a ser alcançado, mas pouco caminharam em suas construções. Freud parecia extremamente envolvido na constante necessidade de pesquisar, escrever, reescrever, estudar, criar suas teorias sobre o inconsciente. Freud não foi importante por ser uma figura mestre da psicanálise. Sua posição de esvaziamento constante em suas obras permitia seu caminhar adiante, seu enfrentamento acerca dos impasses teóricos que surgiam a partir da clínica e não ter medo de ir contra suas próprias construções quando percebia que elas eram equivocadas. Passou a vida revendo suas afirmativas categóricas e possui textos cheios de revisões. Sabemos também de tantos outros textos não publicados e de diversas ideias que não tiveram tempo de serem enfrentadas.

Algum tempo depois de Freud, tempo de diversas construções em psicanálise, Lacan surgiu como um estranho no ninho. Muito se falava sobre suas características estranhas no coração da psicanálise francesa. No tempo de Lacan, após duas grandes guerras, a psicanálise tinha se tornado majoritariamente um lugar de figuras narcisistas onde a psicologia do ego reinava. A clínica parecia ser um espaço de elogio a neurose como ideal para o sujeito e muitas questões sobre a psicose e sofrimentos enigmáticos pareciam limites até a onde a psicanálise podia alcançar. Lacan foi o psicanalista que retomou um dos conceitos considerados mais sombrios da psicanálise freudiana, o conceito de pulsão de morte, especialmente em sua vertente de nonsense radical. Tinha uma curiosidade enorme a respeitos da clínica das psicoses e não tinha medo de enfrentar as dificuldades que haviam surgido no alcance da clínica psicanalítica. Dessa maneira, se distinguia muito dos psicanalistas teóricos mais importantes da época. Apostando na noção de inconsciente como ponto central da psicanálise, insistiu em enfrentar questões que causavam mal-estar na sociedade psicanalítica de sua época, fossem elas políticas, técnicas, clínicas ou teóricas. Se destacava ainda por suas subversões na prática clínica, com relação especialmente ao tempo de análise e suas regras. Quando foi expulso da sociedade de psicanálise, mudou o rumo de seus seminários anuais e fundou o campo lacaniano, ainda que não deixasse de se nomear como freudiano. O ato de fundação de Lacan em seu tempo parecia algo do qual ele não podia escapar, uma escolha por uma ética na e da psicanálise que custou sua excomunhão e uma eterna fama de incompreensível e inacessível. Lacan havia iniciado seus trabalhos com um retorno aos textos freudianos para que lembrassem do que se tratava a psicanálise, que não era sobre ego – apesar de ser parte dela, mas era sobre o inconsciente. Para trabalhar com o lugar do analista, que não era de modelo, de ideal ou de alguém numa posição de saber e poder, mas sim sobre o esvaziamento dessas noções.

Freud e Lacan são importantes na história da psicanálise por que construíram seu jeito particular de trabalhar com a noção de inconsciente. Esta é a radicalidade da psicanálise, inconsciente como uma impossibilidade que nos convoca a criar um jeito particular de inventar, trabalhar, construir. Não se trata de olhar para eles como ideais, como grandes figuras mestras. Lacan já nos alertava para esse problema, quando pedia que não fossemos lacanianos. Não era sobre imitação ou repetição, mas sobre a reinvenção da psicanálise por cada um que se interessa pelo trabalho com ela. Quem se interessa pelo ofício do analista está diante dessa verdade transmitida por gerações de analistas: o desejo de um analista pela psicanálise aponta para um ofício impossível, uma força pulsional não passível de relativização, a urgência de um ato que promova invenção, um saber-fazer com isso. Assim, não estamos aqui para contemplar psicanalistas, não é em torno da contemplação que se permite movimento na história da transmissão da psicanálise.

Destaco, até aqui, a importância da obra deixada por esses dois psicanalistas, obra essa que só foi possível porque ambos se deixavam atravessar pela experiência clínica. É do encontro com os impasses em análise, em cada caso, que se tornava possível o movimento de construções em análise e, posteriormente, construções teóricas. Freud sempre esteve em torno dos enigmas de seus casos clínicos e Lacan, apesar de pouco falar sobre seus casos, também sempre esteve preocupado com as questões sem resposta que atravessavam seus pacientes e supervisionados, especialmente no que tangia a preocupação para que a psicanálise não se tornasse uma técnica aplicável e antecipatória de saber sobre cada caso.

Não é coincidência que Freud e Lacan tenham se preocupado em criar dispositivos que pudessem permitir a circulação de teoria e técnicas durante o percurso de formação de analistas. Porém, estavam desde sempre preocupados em ressaltar que a obra, a teoria e as técnicas não substituem a experiência de uma análise pessoal. A importância da análise pessoal e da supervisão foram constantemente discutidas por ambos, cada um a sua maneira, destacando que é apenas no espaço de análise que um psicanalista vai construir um saber sobre seu desejo. Coloca-lo a trabalho e responsabilizar-se eticamente por essa decisão em relação a psicanálise, ou seja, autorizar-se analista é um ato que acontece no espaço de análise, um ato que se decide sozinho, mas no laço com um Outro, esse Outro marcado pelo analista, pelo supervisor e pelos parceiros de estudos. Esses três aspectos se entrelaçam e funcionam de maneira borromeana.

Em 2016, visitei diversas faculdades de psicologia do triangulo mineiro para ministrar um minicurso intitulado “Psicanálise Marginal”, em que apresentava um breve mapeamento das derivações técnicas e políticas das psicanálises pós-freudianas. Descobri que apenas cerca 5% dos estudantes de psicologia das faculdades (particulares e públicas) havia tido contato com um texto originalmente freudiano. Sobre a qualidade desse contato, apenas cerca de 2% havia lido um texto inteiro da obra freudiana. Apesar da leitura de Freud ser praticamente nula, pelo menos 50% de todas os alunos conheciam termos da psicanálise freudiana e demonstravam interesse em se tornar psicanalistas e cerca de 30% apresentava uma grande aversão as ideias da psicanálise. Fui informada que na bibliografia incluída nas disciplinas de psicanálise dos cursos, não havia a indicação de nenhuma obra freudiana original, apenas textos de comentadores da obra. Uma professora responsável pela construção da ementa das disciplinas de psicanálise declarou, no final de um minicurso, que a leitura de Freud não era possível no meio acadêmico.

Em um evento de psicanálise que aconteceu na cidade de Uberlândia, também em 2016, um psicanalista defendia a ocupação da posição de poder e mestria nas instituições de psicanálise a partir de Foucault, afirmando a impossibilidade do vazio de poder. De tantas afirmativas foucaultianas sobre o poder, causou certo estranhamento a escolha dessa citação específica, já que o evento, de psicanálise lacaniana, abordava a questão do estrangeiro e como essa condição resulta em respostas de violência e exclusão. Se a psicanalise lacaniana se funda a partir do vazio como causa, parece que estávamos diante de um equivoco não apenas da leitura de Foucault, mas também da noção de transmissão em psicanálise.

Durante meu tempo na psicanálise, cerca de 13 anos, recebi diversas demandas de estudantes e profissionais interessados em se tornar analistas. A grande maioria inicia essa caminhada a partir dos estudos teóricos e da supervisão, mas não tarda o topão com o real, seja via uma dificuldade teórica ou uma paralisação nos atendimentos clínicos, que não se resolve com estudo teórico ou manejo de técnica. Tão logo se torna evidente a necessidade de um tempo para análise pessoal, muitos decidem por tomar um desvio, seja por se auto intitular psicanalista e seguir adiante oferecendo psicoterapias que duram pouquíssimo tempo (porque os pacientes vão embora) seja por mudar de instituição ou escola acreditando que o impasse se dá no espaço de estudos, e não nos próprios limites e sintomas diante do encontro com o real.

Já que a academia parece não ser o lugar para o estudo da história da psicanálise freudiana e parte das instituições responsáveis pela formação do analista se apoia em um equívoco acerca da psicanálise lacaniana para oferecer tratamento e depuração do desejo do analista, o estabelecimento de um espaço para essas questões se fazia urgente e inevitável. Em 2011, achei que tinha sido apenas um encontro de sorte conhecer Cirlana e Germano em diferentes situações do meu percurso de psicanalista. Hoje, em 2017, sei que o que nos enlaça é o desejo particular em torno de um saber-fazer com a psicanálise em sua proposição central, do inconsciente. Nosso ato é uma escolha ética, já que não é possível fugir da responsabilidade de se posicionar frente ao desejo pela e na psicanálise e sua implicação com o laço social. Tendo como proposição central do nosso espaço um funcionamento borromeano, partimos da importância dos três eixos fundamentais para iniciar nossos trabalhos: a oferta de espaços de estudos teóricos, mas também um espaço clínico e a possibilidade para que cada um possa escolher e enfrentar um tempo de análise e de supervisão.

Muitas pessoas querem ser psicanalistas e muitas instituições ensinam termos e conceitos psicanalíticos, mas desejo não é sinônimo de querer e o desejo pelo ofício do analista se trata de um ato de decisão, uma escolha forçada. Em um tempo no qual Freud parece esquecido pelos bancos universitários e psicanalistas se tornam grandes figuras mestres das instituições de psicanálise, parece necessário discutir do que se trata a escolha pela psicanálise. O que é, de fato, autorizar-se analista. Lacan chamava isso de aberração, que alguém se decidisse pelo desejo de analista. Sobre esse incômodo, trata-se de trabalhar com uma recusa, já que a posição do analista é essa de recusar a demanda transferencial, de silenciar a demanda de saber e fazer surgir a angústia frente a impossibilidade, para só então a invenção particular se fazer construir.

Para Lacan, diante da impossibilidade que está em jogo no ofício do analista, é preciso ser herético, pois “haeresis é realmente o que especifica o herético. É preciso escolher a via por onde tomar a verdade. Ainda mais porque a escolha, uma vez feita, não impede ninguém de submetê-la a confirmação, ou seja, de ser herético de boa maneira. A boa maneira é aquele que, por ter reconhecido a natureza do sinthoma, não se prova de usar isso logicamente, de usar isso até atingir seu real, até se fartar”. (Lacan, 1975-1976, p. 16). Em nota de rodapé, Lacan explica que haeresis vem do grego e designa a ação de fazer uma escolha.

O espaço de estudo sobre a história não nos deixa esquecer os atos importantes de uma época. Não nos deixa esquecer do que realmente se trata a psicanálise. Mas uma história pode ser contada de muitas maneiras, e, com o tempo, há quem tome como verdade a palavra de comentadores que fazem leituras costuradas e apresentam os mestres que lhe convém. Assim, atrelada a história, é preciso se ocupar também da transmissão e do presente. Hoje, no contemporâneo, que histórias estamos construindo com a psicanálise?

É de uma saída de analise que se produz um analista, um sujeito que se responsabiliza por sua maneira particular de saber-fazer com o inconsciente, não posicionando o saber-de-si no Outro, construindo um laço a partir de uma invenção. Assim, um analista é esse que (a) põe a trabalho a impossibilidade de realização pulsional, oferecendo-se como Outro; (b) passa adiante a ética de escolha em ação de um saber-fazer. Essa articulação entre transmissão e dimensão do impossível estão presentes na definição de clínica psicanalítica, em Lacan: “O que é a clínica psicanalítica? (…) Ela tem um fundamento. (…) A clínica é o real enquanto impossível de suportar”. O que faz um analista diante do impossível, em cada caso?

O espaço hæresis de história e transmissão da psicanálise objetiva por em circulação essas questões, levando em conta as noções de direção do tratamento, o poder na clínica psicanalítica e os impasses frente ao vazio como causa.

 

Primeiras leituras:

  • Freud, S. (1926) A questão da análise leiga. In Obras Completas Vol. XX.
  • Lacan, J. (1958) A direção do tratamento e os princípios de seu poder. In Escritos.

Referências Bibliográficas

 

Chechia, M. & Torres, R. & Hoffmann, W.  (2008). Atas da sociedade psicanalítica de Viena, volume 01: Os primeiros psicanalistas 1906-1908. Ed. Scritozium, São Paulo.

Goldenberg, R. & Leite, N. (2016) Dossiê Psicanálise Marginal, Revista Cult.

Lacan, J. (1975-1976). O seminário livro 23: O sinthoma. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro.

Roudinesco, E. (2011). Lacan, a despeito de tudo e de todos. Ed. Jorge Zahar, Rio de Janeiro.

 

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