Hæresis Psicanálise

A fala de uma criança em impasse subjetivo e seu efeito de angústia

Por Hæresis Psicanálise em 16/02/2017 17:01

Capítulo de Livro: Psicanálise e Mal-estar na Universidade
(Organização: Edmundo Narracci Gasparini, Nina Virgínia de Araújo Leite e Paulo Sérgio de Souza Jr.). Editora Mercado de Letras. 2015. p. 147-161.

Cirlana Rodrigues de Souza

            Introdução

Este artigo se inscreve na clínica psicanalítica com crianças em impasse subjetivo. [1]  Esse impasse é caracterizado pelo enodamento da criança na posição de alienação subjetiva no qual seu drama constitutivo é narrado em uma fala repetitiva em sua entonação e em suas verbalizações.  Acompanhamos um menino, hoje com seis anos e que chegou ao tratamento clínico em um posicionamento na linguagem sugerindo traços psicóticos, ou seja, repetição de frases vindas do outro, mas sem inversão sintática e semântica demonstrando que ele não se apropriava da língua, em um funcionamento sem estatuto do imaginário com as coisas do mundo.

Trabalhar com os dizeres da criança como fala, portanto instância da língua (Pincerati, 2009), possibilita acompanhar seu percurso de subjetivação (e seus impasses subjetivos) com base na intrínseca relação entre língua e sujeito, de modo mais específico, da língua como constitutiva do sujeito. Sobre a questão da língua determinante da subjetividade, partimos da hipótese de Lacan (1961/1962[2003]): um significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante. É com base nessa proposição que Balbo (2004, p.123) discorre sobre a língua que interessa como aquela que “[…] nos causa, e que só falamos por ouvi-la da boca do Outro”. Ou seja, nos causa por vir do Outro, do campo da linguagem, tesouro dos significantes, conforme Lacan (1964[2008]).

Dos Estudos Linguísticos nos interessa o funcionamento desse significante constituído pela distinção entre seus pares formando o signo linguístico como um sistema de valor (Saussure, 1916[1995]) sustentando que é mesmo pela diferença entre sujeito e Outro que o sujeito em constituição se efetiva, após sua posição subjetiva inicial marcada no tempo da alienação nesse campo. No percurso de vir a ser sujeito do desejo, é o funcionamento da língua nos eixos sintagmático e associativo (paradigmático) que torna possível acompanhar a subjetivação da criança, em seus dizeres.

Diante da criança inicialmente mencionada, uma questão se impôs: “Quais as estratégias de linguagem ela, em impasse subjetivo, vai construindo em seu percurso de subjetivação como possibilidade de outra direção a esse impasse?”. A hipótese é a de que a criança constrói essas estratégias subjetivas a partir dos significantes que o Outro lhe oferece, em uma relação associativa, e do singular da criança com esses significantes, em uma relação sintagmática, marcando a possibilidade da diferença nesse campo de linguagem.

Especificamente, abordaremos a dificuldade em lidar com as falas dessa criança como dado linguístico considerando que o trabalho de pesquisa de doutorado se inscreve no campo dos Estudos Linguísticos. A passagem da função da fala na clínica – de nos apontar para a condição de sujeito – para sua função de dado linguístico, portanto de dizer sobre ocorrências da língua, resulta na tensão que existe entre a relação da psicanálise com o saber sobre a língua, dizendo de outro modo, com um não saber sobre a língua e a relação dos Estudos Linguísticos com o conhecimento sobre a língua, da tensão provocada pelo encontro do analista com o linguista em que o primeiro, como parte dessas investidas epistemológicas deverá – em se tratando de clínica da criança – estar na posição de subjetivação (de agente de subjetivação) e ser destituído, mais dia menos dia, de sua posição de suposto saber, e, o segundo, o linguista, como investigador sobre a linguagem que deverá sustentar um conhecimento sobre seu objeto de estudo, sobre a fala de crianças.

Como resolver essa tensão se o universal para a psicanálise é justamente o inapreensível, a condição de sujeito barrado e o universal para os Estudos Linguísticos é o que é possível apreender nas formas descritíveis da língua? Por se tratar também de psicanálise o caminho é não resolver essa tensão (o conflito), mas operacionalizá-la nessas investidas na clínica e na escuta dessa criança em seu percurso de constituição como sujeito do desejo.

 

            A tensão: a fala da criança como dado linguístico

 

Tentar reduzir o que a criança nos dizia, durante sessões clínicas, a dado linguístico (recorte, corpus de trabalho) teve um efeito muito importante no trabalho e que, durante algum tempo, nos paralisou diante dessa criança: efeito de angústia, pois literalmente não sabíamos o que fazer com esse “dado”. Sobre isso consideramos alguns pontos. A saber: essa angústia como uma espécie de parâmetro para delimitar os episódios dessas falas e o mostrar essas falas por meio da transliteração de nossas falas alçadas inicialmente a signo. De modo breve, situamos esses pontos, na sequência.

Nos estudos linguísticos temos, como tradição, o recortar as ocorrências de linguagem orais ou verbais para explicá-las por meio de descrições e/ou análises pautadas em estruturas linguísticas ou extralinguísticas. Nada que não seja apreensível deveria ser considerado e, muitas vezes, ouvimos que esta ou aquela explicação deve ser “mostrada” no dado em uma relação direta entre um conceito e a forma que o representa, algo muito próximo ao signo saussuriano e a relação significante e significado. Porém, a questão do dado linguístico merece outra visada quando o foco da investigação é o inapreensível que apenas está marcado como possibilidade de haver, ali onde há falta nos dizeres da criança, sujeito em constituição.

Um ponto difícil, dessa questão, é sobre a transcrição das falas. Primeiro essas falas foram gravadas em sessões clínicas e transcrevê-las seria impor o enunciado sobre a enunciação e, segundo, se o que interessa de uma sessão clínica à psicanálise é o inapreensível a um gravador (o sujeito), o que transcrever?  Dessa criança, poderíamos transcrever os momentos em que suas repetições insistentes tinham efeito de insuportável, de angústia, instaurando um vazio entre nossos dizeres.  Vazio que nos remetia sempre a uma falta, a uma suspensão de haver algo entre nossos dizeres – algo indizível, porém suposto – e essa suspensão sempre seguida de um retorno do sempre repetível dessa criança que começou com perguntas vindas de outros, portanto ecolálicas, até repetições da fala de outros (e nossas) que lhe permitiram, pela primeira vez, dizer o nome próprio mesmo que vindo da boca do outro.

Esses breves apontamentos sobre a transcrição nos remetem a De Lemos (2003, p.28) ao dizer que do corpus, constituído da fala de crianças, o que resta são aqueles episódios “[…] em que irrompe uma criança através de uma fala inesperada. Fala essa que, no entremeio da fala do outro a que está alienada, diz que ela, na sua singularidade, habita aquela língua, a do Outro.” E, também, nos remete a Vorcaro (2000, p.136) ao abordar o estatuto do dado linguístico como articulador de abordagens teóricas e clínicas. Para esta autora, o dado linguístico produzido na clínica deve ser tomado como uma “[…] possibilidade de recolher a singularidade através do testemunho da clínica.” E, continua ela, “[…] em cada caso, a dita patologia de linguagem[2] estabelece um método, por estar regida por leis próprias de inscrição de um sujeito na língua, língua na qual um laço discursivo o aloca.”

Desse modo, é a condição subjetiva de impasse na alienação constitutiva dessa criança que estabelece o modo de transcrever e trazer nossas falas à análise, condição manifesta na insistência, inicialmente maciça, de ecoar a fala do outro e, atualmente, se alternam com falas inesperadas. Ou seja, os episódios (sincrônicos) nos mostram as repetições e, em um percurso (diacrônico), temos as possibilidades de acompanhar as substituições e deslocamentos nessas falas.

Esse modo de transcrever considera a angústia como momento direcionador da escuta da fala dessa criança. Dizendo de outro modo: como aquilo que não engana (LACAN, 1962-1963[2005]), no contexto transferencial da clínica, por ser inominável, por não fazer sentido. Por muitas vezes, não nos era possível responder às perguntas insistentes, não era possível, pela fala, incidir um ato nessa estruturação que pudesse romper com o que parecia não ter intervalos e que era incessante impedindo, até mesmo, um investimento imaginário de sentidos no que a criança dizia. O caminho foi começar a repetir suas entonações, suas sibalizações em “psipsipsipsis” e “tátátátás” nos pontos de angústia e que eram, esses pontos: um não saber o que responder a uma criança que só fazia perguntas e não se interessava por nenhuma resposta, a impossibilidade de cessar os ecos, a dificuldade de entender o que era dito, o fato de que a criança, por alguns momentos, parecia nos rejeitar como interlocutor em contraponto ao fato de que, em outros momentos, nos impunha que lhe oferecêssemos as palavras para que ela pudesse falar.

Para a linguística interessa as formas da língua que são passíveis de serem transcritas. Para a clínica, o que não é mostrado em uma transcrição é imperativo. Frente a isso, a tentativa é operacionalizar a noção de transliteração proposta por Allouch (1995, p.63):

 

A transliteração é o nome dessa maneira de ler promovida pela psicanálise com a prevalência do textual: ela é esta própria prevalência, ela a designa, a específica, e a dá pelo que é, a saber, uma operação.

 

Essa transliteração seria possível tomando, inicialmente, a fala da criança como um signo, como o signo de Pierce (na teoria geral dos signos) tal como Lacan (1960-1961[1992], p.232) sustenta no Seminário, Livro 8, A Transferência, falando do desejo do analista:

 

De fato, ele também não é sem ter um inconsciente. Sem dúvida, ele está sempre para além de tudo aquilo que o sujeito sabe, sem poder dizer isso a ele. Só pode lhe fazer um signo. Aquilo que representa alguma coisa para alguém, esta é a definição do signo. Não tendo, em suma, nada mais que o impeça de ser, este desejo do sujeito, senão justamente por tê-lo, o analista está condenado à falsa surpresa. Mas digam a si mesmos que só há eficácia se nos oferecermos à verdadeira, que é intransmissível, e da qual ele só pode dar um signo.

 

É desta noção que Lacan chegará ao significante como o que representa o sujeito para outro significante. Do signo ao significante, Lacan (Idem, p.258), na sequência desse seminário, se pergunta:

 

Um significante, simplesmente representa alguma coisa para alguém? Não está ai a definição do signo? É isso, mas não simplesmente isso. Acrescentei uma outra coisa da última vez que recordei para vocês a função do significante, é que o significante não consiste simplesmente em fazer signo para alguém, mas, no mesmo momento da mola significante, da instância significante, fazer signo de alguém – fazer com que o alguém para quem o sujeito designa alguma coisa, este signo o assimile, que o alguém se torne, ele também, este significante.

 

Considerar a fala da criança como esse signo vai possibilitando que, em algum momento (em termos de posição subjetiva), uma instância significante, uma ruptura nessa cadeia de representar alguém para alguém seja signo de haver ali sujeito em constituição.

Se impasses e dificuldades vão surgindo em um percurso de constituição do sujeito, são nesses pontos a possibilidade de escutar essa criança servindo-lhe de lugar de subjetivação: posição gerada pela dúvida e pela angústia e não pela certeza e segurança resultantes de um possível conhecimento prévio sobre a criança e sua “língua”. Mas, é válido esclarecer que isto não implica em não antecipar, pela via do Imaginário, uma aposta no sujeito em constituição.

Com base no que essa criança nos faz pensar sobre a língua (e a linguagem) a partir do modo como se relaciona com esse campo é que a tentativa é levar adiante a relação possível entre os estudos linguísticos e a psicanálise, em que o efeito é de algo que se instaura a partir da tensão que caracteriza essa relação e que tem haver, entre outros aspectos, com o fato de que o significante para a linguística é atado a um significado, enquanto que para a psicanálise o significante é definido pelo sujeito do inconsciente que é no lugar do vazio de sentido.

Frente a isso, Milner (1995) ao discorrer sobre as relações possíveis entre linguística e psicanálise, transformadas pela obra de Jacques Lacan [1901-1981], esclarece vários aspectos dessas relações. Mas, dois pontos são importantes na visada de um encontro entre a psicanálise e linguística, em um programa de pesquisa intitulado Estudos Linguísticos, dentro de uma universidade.

O primeiro ponto, como já foi abordado, se refere ao fato de que a linguística poderia considerar os dados linguísticos levantados e atualizados pela psicanálise: O que esses dizeres, falados na clínica, nos mostram sobre o funcionamento da língua?

O segundo ponto se refere à importante observação de Milner (1985) de que a fala constitui a mesma substância que tanto linguista como analista manipulam e que ambos lidam com o paradoxo de ser sujeito falante: têm que lidar com a própria língua e com o próprio inconsciente. A questão, com base no autor citado, é que a psicanálise enfrenta esse paradoxo, enquanto a linguística ainda insiste em considerá-lo uma deformação de seu objeto.

 

Análise como um enfrentamento

 

Segue-se um esboço de análise das falas da criança mencionada como um modo de enfrentamento da tensão que se instaura entre linguística e psicanálise e que direciona as questões anteriormente levantadas.

De modo geral, aquilo que, no início, aparecia como uma problemática para essa criança se mostrou sua marca singular no campo da linguagem, como suas estratégias a seu impasse subjetivo: a ecolalia que passou a repetição em que repetir a fala do outro é a primeira posição da criança, na linguagem, como sujeito falante (De Lemos, 1981, 1982, 2002). Aqui, é uma discussão que se dá pensando na especularidade da criança com a fala do Outro. Essa ecolalia inicial, que insistia como sintoma, portanto dizia da criança, seria uma dessas estratégias, a forma desse sujeito em constituição se engendrar na linguagem. Além da ecolalia sintática (o paralelismo sintático demonstrando não haver efeito da relação de oposição na cadeia), também foi possível escutar suas concatenações quando cantarolava seus “psispsispsis” e “tatatás”: significantes, muitas vezes quase inaudíveis, que essa criança oferecia e que basculava no meio dessa rigidez sintagmática, como uma emergência inesperada nas cadeias ecolálicas que possibilitou supor haver ali um sujeito se constituindo em estreita relação com o tempo da afânise e da separação subjetiva.

A fala dessa criança ia do paralelismo sintático, insistindo na entonação, na ecolalia até o ponto, nesse percurso marcado pela repetição, em que, como ocorre nos episódios abaixo, a referenciação por meio de uma forma nominal sustentou a possibilidade de haver sujeito em constituição, como estratégia de linguagem para seu impasse. Atualmente questionamos essa referência a um terceiro como um fenômeno de linguagem comum à estrutura psicótica, a inversão pronominal, em que o falante se refere a si como um outro, na terceira pessoa do singular: trata-se, como hipótese clínica, de uma referência da criança a si mesma em que repetir o que o outro diz dela é começar a reconhecer-se na fala desse outro.[3]

Na sequência, alguns episódios de nossos dizeres. Lembrando que a criança apresenta um impasse subjetivo que aponta para a possibilidade de psicose, o que é possível sustentar em um diagnóstico estrutural considerando a inscrição desse sujeito já no tempo da alienação subjetiva, portanto no campo da linguagem e, também, pelo fato de haver interesse por parte dele pelo Outro e pelos outros, que são sempre trazidos por suas ecolalias e repetições que, direcionadas ao outro em posição de escuta, vêm acompanhadas do olhar que não é evasivo, mas afetivo e vinculador. É com base nesse diagnóstico que sustento que essa ecolalia não é parte de um quadro de autismo infantil e, por isso, é possível pensar nas diferentes tomadas, pela criança, da fala do Outro, do modo como ela toma os significantes que lhes são oferecidos na hipótese de psicose infantil.

Os movimentos ecolálicos do menino, muito maciços no início do tratamento, não eram apenas imediatos, ou seja, não reproduziam o que lhe era dito apenas no momento da sessão. Os blocos, difíceis de desmontar de sua fala, vinham de outro lugar. Essas ecolalias conhecidas como tardias acabavam por instaurar, entre nós, um circuito de diálogo que correspondia a pergunta-resposta-pergunta-resposta até que um significante (seus psisipsis) promovesse algum deslocamento nesse eixo. Também, lhe é ainda singular o paralelismo sintático que, mesmo deslocando e substituindo significantes que lhe são oferecidos, estes se ‘encaixam’ nessa estrutura sintagmática rígida. Aqui é possível pensar que, em seu percurso subjetivo, estaria havendo uma determinação da posição psicótica? Todavia, ao acompanhar seu percurso podemos ver o inesperado rompendo nessa estrutura que ecoa e depois se repete mudando esse entrelaçamento alienante do sujeito com a linguagem.

 


Episódio 1: Primeira sessão, em que ele mexia em uma caixa com brinquedos, de costa, porém não era possível a ele brincar com o que manipulava, sem imaginário. Esta estrutura sintagmática permaneceu sem deslocamentos durante muitos meses antes que os signos tivessem efeito de corte, alçados ao estatuo de significante, produzindo uma diferença nessa estrutura.

 


Cadu: Qué blincá.

T:[4] De que vc vai brincar?

Cadu: Cê batí?

T: O que é?

Cadu: Cê batí?

T: Não, eu não bato não.

Cadu: Cê vai batê não?

T:  Não.

Cadu: Qué blincá.

T:  De que você vai brincar? (Oferencendo caixa de brinquedos)

Cadu: Vai batê. Qué blincá. Cê vai batê chinelo?

 

 

Nesse episódio é possível supor que o eco que vai fazendo da fala do outro – eco naquele momento angustiado – no dito Cê batí? substituiu o Qué blincá devido a uma associação, no campo da linguagem, entre bater e brincar, sendo possível, então, a substituição no sintagma, mas uma substiuição que não aponta para uma diferença. Esse funcionamento ecolálico permite supor o enodamento do sujeito no ponto da alienação, pois ao tomar o que vem do Outro não produz a diferença. Mas, é esse mesmo funcionamento ecolálico que nos permitiu escutar e insistir em lhe oferecer signos e, como se lê nesse breve episódio, ele foi ecoando – na forma imediata – nossas palavras como ao se apropriar de bater não em Cê batí? Não, eu não bato não. Cê vai batê não?, momento em que foi possível hipotetizar um diagnóstico diferencial com o autismo, pois ele, mesmo ecoando sintaticamente, estabeleceu um diálogo comigo. Vale uma referência ao jogo sonoro entre batê/brinca/batê ditos sempre na mesma entonação, enfatizando a última sílaba. Diante desse jogo o modo como lhe oferecíamos palavras enfatizava essa entonação também. Acreditamos que nossa entrada nesse jogo sonoro teve como efeito estabelecer as relações associativas entre o que o campo da linguagem lhe oferecia e o que, desse campo, ele se apropriava: ênfase na semelhança como antecedendo à diferença.

Na continuidade, a ecolalia, até então a serviço da alienação, mostrou-se a serviço de uma possibilidade de diferença, de deslocamento no eixo da fala. Quando lhe digo De que você vai brincar? e ele reponde Vai batê. Qué blincá. Cê vai batê chinelo? ainda temos blocos sintáticos que se repetem, mas em termos associativos ele traz, para cadeia, tudo o que foi lhe dito anteriormente e acrescenta um novo significante: chinelo. Também, a referência a si de forma invertida com o uso da terceira pessoa do singular lhe é característica e merece um destaque, pois, nos primeiros meses, vinha sobre uma forma vazia o lugar, na sentença, do pronome ele. Ou seja, nem mesmo pelo espelhamento no outro era possível referir-se a si mesmo, pois não havia uma inscrição que lhe fosse singular dada sua alienação subjetiva. Mas, sabemos que é na falta que o sujeito se constitui e esse vazio – essa afânise – será, posteriormente, como será mostrado nos próximos episódios, preenchido por significantes vindos do Outro que dirão dessa criança deixando lhe inscrito quem é ele.

 

Episódio 2:  Nesse episódio Cadu está correndo pela sala no ritmo de uma música cantada por nós. Ao brincar pela sala acompanhando o ritmo da canção que cantávamos ele imaginariamente nos diz que está se movimentando no campo do Outro a partir dos significantes que esse Outro lhe oferece, em termos transferenciais que supõe, no Outro, um saber.

 


Cadu: Cabô. Caiu. Bateu. Tô pegandu.

T:  Cadu caiu, bateu nu chão e tá pegandu o sapato.

Cadu: Caiu.

T:  Cadu caiu nu chão.

Cadu: É rosa.

T: O que é rosa?(Continuo cantarolando)

Cadu: Tá cantandu? Ela tá cantandu.

T:  É. Eu estou cantando. Você vai cantar comigo?

 

 

Nesse episódio, o menino mantém sua rigidez sintagmática e há inversão pronominal quando a referência é a si mesmo – ainda não se reconhece, pois não há o especular, a especularidade, o espelho de Lacan. Porém, um deslocamento é primordial na ocorrência Tá cantandu? Ela tá cantandu. Como uma bascula na cadeia significante esse Ela vem demarcar uma diferenciação com o Outro e o reconhecimento, por parte dessa criança, desse Outro. É possível ter havido uma imitação sintática por parte dele? Pois, antecedendo esse dito nos referimos a ele narrando o que ele fazia em terceira pessoa: Cadu caiu, bateu nu chão e tá pegandu o sapato. Nesse ponto, o que era eco da fala do Outro e de outros dá lugar a uma imitação desse Outro: ele passa a se apropriar da língua como o Outro faz. Também, ao trazer a heterogeneidade para sua fala, Cadu nos mostra como a diferença – resultante de uma associação advinda do campo da linguagem – instaura um limite entre o que é eco e o que poderá vir a ser repetição, ou seja, reconhecimento de si pelo que o Outro lhe oferece.

 

Episódio 3: Nesse momento, Cadu está pegando um carrinho e duas bonequinhas e já, desde algum tempo, é possível vê-lo tentando criar histórias com os brinquedos, juntando os brinquedos da sala, selecionando alguns e rejeitando outros, nos oferecendo alguns e aceitando um ou outro que lhe é oferecido. Nesse episódio, de modo específico, ele vem brincando com algumas bonequinhas de pano em uma casinha de madeira.

 


T:  Você vai brincar com o carrinho?

Cadu: Caiu! Caiu!

T: Caiu ou o Cadu jogou?

Cadu: Cabô.

T: Acabou o quê? Leva o carrinho para passear.

Cadu: O bixim foi nu clube. Ele voltou.

T:  Pega.

Cadu: Tô pegandu.

T:  Coloca ela sentada. Onde o Cadu vai levar ela para passear?

Cadu: Ela mordi. Qué pô ela. Caiu! Caiu!Caiu! Caiu!

T: Vamos colocar ela sentada.

Cadu: A Marinha.

T: Quem? O nome dela é Marina?

Cadu: Marinha.

T: Você disse que o nome dela é Marinha.

Cadu: Cabô. Caiu.


 

Nesse recorte, temos uma marca importante das tentativas da criança em tomar a palavra. Pela primeira vez escutamos uma nomeação proferida por ele e o significante não foi tomado pela ecolalia. Primeiro, o Ela, em referência à boneca nos mostra, na narrativa, o que ele vai fazendo de sua brincadeira, em uma possível dialética entre os diferentes sujeitos dessa história. Na ocorrência anterior, O bixim foi nu clube. Ele voltou temos uma substituição na forma nominal que nos mostra como seu paralelismo sintático, antes ecolálico, foi cedendo lugar a um funcionamento associativo entre bixim e ele, colocando essa criança no campo do sentido – do produzir sentido – ou seja, uma possibilidade de que, estruturalmente a afânise vá dando lugar à inscrição de sentido e não mais ao vazio.

Notoriamente, o significante – encarnado nos fonemas por ele falado – foi escutado, resultado de uma homofonia, por mim como Marina quando ele a nomeia. O importante foi sua recusa à minha significação, fazendo-se, então, um lugar de sentido para ele, indícios de uma relação com a língua marcada pela diferença em que o que vem do Outro tem seu lugar diferenciado do que vem dele. Ao oferecer significantes, Cadu não está mais à mercê dos significantes que lhe oferecemos. A mudança nos mostra a possibilidade da diferença. Há, inclusive, nesse recorte, um diálogo, uma dialética do sujeito na qual nos apresentamos como faltante, na medida em que lhe demando respostas e ele responde, a partir de sua falta, nos oferecendo significantes. O que se escuta é uma mudança que pode apontar para uma saída de sua condição inicial de impasse, porém não a resolução desse impasse, ainda. Transferecialmente, pensando em uma ordem paradigmática, é possível ver a movimentação para além de um enodamento inicial. Em relação ao ritmo repetitivo e silábico de sua fala, enfatizando sempre a última sílaba, nesse ponto de seu percurso, esse aspecto começa a se perder não havendo mais essa entonação singular de nossos encontros iniciais e que foram fundamentais para que, de algum modo, entrássemos nesse funcionamento de Cadu, pelas repetições desse ritmo.  Ou, talvez, o modo pelo qual ele entrou no campo transferencial que ali se instaurava.

 

Epsódio 4: Enquanto coloríamos desenhos de palhaços que fazem um programa de televisão.

 


T:: O que vc tem no olho?

Cadu: Machucô o olhu. Cadê a Marinha vermelha?

T:  Hoje ela não está aqui.

Cadu: Tá Marinha rosa. Cadê o PatatiPatatá?

T:  Tá aqui. Qual você quer?

Cadu: Fazê PatatiPatatá.

T:  Vermelhu e azul.

Cadu: Machucô o olhu. Vovó machucou u olhu.

T: Sabe o que pode ter acontecido? Ela foi enxugar seu cabelo e encostou em seu olho.

Cadu: Machucô o olhu. Vovó bateu chinelo.

T:  Você está me contando que vovó bateu o chinelo em seu olho?

Silêncio

Cadu: Cabô. Cadu não foi pra escola.

 

 

Nesse episódio a ecolalia e a imitação dão lugar à repetição da fala do Outro. Para contextualizar esse funcionamento, vale dizer que alguns momentos antes do início da sessão a avó da criança conta que naquele dia ele não foi para a escola. Toda a sequência de fala é Cadu estabelecendo relações associativas e de diferenciação (já que vai substituindo os termos na cadeia de sua fala) entre o que ele dizia e o que eu dizia, para nos dizer o por quê não foi para a escola para, ao final, repetir o que ouviu da boca da avó: Cadu não foi pra escola.

O sujeito se enuncia nesse recorte, esta poderia ser minha aposta: é a primeira vez em que ele faz referência explícita a si mesmo, ainda em terceira pessoa. Agora há um nome, uma criança nomeada. Também, nesse ponto, parece haver uma dimensão de posicionamento subjetivo. Primeiro, há uma recusa, um corte de minha leitura sobre a causa do olho machucado; em segundo, denuncia o outro, marcando a separação, a diferença e isto tanto em relação à figura do cuidador, da avó, quanto a nós. Há, nesse episódio, o fato singular de dizer sobre si, de reconhecer na fala do outro o equívoco e, pela primeira vez, ele fala seu nome – mesmo vindo da boca do outro – para dizer sobre seu movimento por diferentes contextos, lugares no mundo: o menino fala si e dá indícios de poder vir a sustentar seus dizeres, portanto ser falante, quando recusa nossa palavra e coloca outras palavras no lugar. Ou seja, reconhece a fala do Outro e, em termos de constituição, nos mostra que reconhece a diferença com esse Outro. Na fala de Cadu, parece ser o momento de encontro com a diferença, com a heterogeneidade constitutiva. Falar seu nome, dizer que não foi à escola é a repetição das palavras dos outros, da avó materna. Todavia, dizer (mesmo que repetindo o que vem da boca do Outro) seu nome não é da alienação e nossa hipótese é de uma possível saída estrutural, um momento onde o simbólico passa a incidir, novamente, nesse percurso, conforme a especularidade na fala da criança.

Lacan (1946[1998], p. 181) em suas Formulações sobre a causalidade psíquica, retomando o ponto zero como o tempo da matriz simbólica que antecede à identificação da criança com o outro, apresenta uma singular “forma de relação com o mundo”, o transitivismo, “[…] fase primordial em que a criança adquire essa consciência de seu indivíduo que sua linguagem traduz, vocês sabem, na terceira pessoa, antes de fazê-lo na primeira.”  Em posição alienante – fundadora do sujeito, porém, um impasse para Cadu – a criança, por identificação, toma do outro elementos (significantes, afetos) como seus. Falar de si em terceira pessoa é, portanto, tomar-se do Outro primeiramente. Nessa direção, uma possibilidade seria considerar o que Cadu ouviu de si e tomou para si (no sentido de ter sido capturado por), mas ainda na terceira pessoa do singular, pois se encontra justamente na posição alienante, mas dando indícios de uma relação com o mundo em Cadu não foi para a escola e de uma “consciência de si”.         Cadu pode ter atribuído a si uma nomeação feita pelo outro?  É possível que, ao se identificar ao outro da fala da avó (ao Cadu que não foi para a escola como ela nos conta), ele reconheça que esse outro é ele mesmo? Desse modo, a fala repetitiva – e não mais ecolálica – teria a função do espelho no processo de identificação primária, nas primeiras identificações de Cadu: Eu e o Outro (que é dito) somos um.

 

Episódio 5: Durante essa sessão Cadu volta repetitivo, e não ecolálico, porém com novos conteúdos, pois fala sobre seus colegas da escola nos dizendo, então, que está na escola. O que vai dizendo é sobre um menino que ainda não consegue sustentar o laço com as outras crianças, porém, ao dizer sobre elas começa a lhe direcionar uma demanda e responder, ao seu modo, ao que os outros lhe demandam. Interessa-se sobre algumas ferramentas de brinquedo e, enquanto vai falando, passa a sessão tentando brincar com as ferramentas conosco. Cantarola os “psipsipsis” entre um movimento e outro e entre os dizeres. Quase ao final dessa sessão, o menino aceita as palavras que vamos oferecendo para que substitua as palavras que vem repetindo. Por ter recebido essas palavras elas passaram de signo a significante fazendo com que a criança, pela repetição da fala do Outro, caminhe no campo da linguagem.

 


Cadu: Paulo é feiu. Vô batê Juaum Vitor. Vô batê Paulo.

T:  Você está me contando os nomes de seus colegas de escola. Mas vai bater em todos por quê?

Cadu: Vô batê ….. Gabriel é feiu. Vô batê Gabriel.

T:  Gabriel é colega. Gabriel é bonito. E Cadu vai brincar com Gabriel.

Cadu: Vitor é feiu e fi da puta. Vô batê Vitor.

T: Vitor é colega e bonito. Cadu vai brincar com Vitor.

Depois de uma longa sequência, quando arrumávamos a mesa para terminar a sessão, ele diz, me olhando:

Cadu: Vitor é colega bonitu. Vai brincar Vitor.

T:  E o Paulo?

Cadu: Paulu é colega bunitu.

 

 

 

Nesse episódio, o fato de se dirigir a nós, pelo olhar, para falar dos colegas tomando os significantes oferecidos, nos possibilita sustentar não se tratar da ecolalia da fala do outro e nem imitação, pois não nos imitou sem nenhuma alteração. Ao repetir o que lhe dizíamos foi possível a ele associar as palavras vindas do outro, ser marcado por elas e, depois de algum tempo, retomá-las. Esse percurso entre o que dissemos e o que ele disse – nos repetindo – nos faz supor que, na relação com a língua dessa criança, há significantes inscritos e que são retomados, como signo, no eixo das associações constituido de traços mnêmicos, inscrições advindas do Outro. Apostamos, nesse momento sincrônico, haver uma repetição, uma tomada da fala do outro e deslocar esses significantes no sintagma mostrou o heterogêneo na cadeia.

 

 

            Considerações finais

 

Retomando a difícil relação linguística e psicanálise que abordamos e que resulta, impreterivelmente, em uma tensão no limite entre os dois campos de saber, podemos, para finalizar, trazer de volta a questão feita anteriormente: o que os dizeres, dessa criança, falados na clínica, nos mostra sobre o funcionamento da língua?

Primeiro,  não nos parece que a problemática de tomar a fala da criança, realizadas na clínica, como dado linguística resultaria na perda do singular caro à questão do sujeito em constituição. De fato, essa fala, quando retirada da clínica, já passa a ter um estatuto de dado linguístico passível de recorte, descrição e análise. Porém, pela versão da psicanálise, a ênfase é justamente dar esse estatuto de dado linguístico aos pontos de opacidade da língua, em que é possível descrever e dizer sobre as regularidades e funcionamento dessa língua, tomando a fala a partir de sua função de dizer sobre esse sujeito do desejo.

Segundo, e nos parece primordial, a clínica nos impõe uma regularidade singular e irrepetível no funcionamento da língua dessas crianças e isto implica que os estudos linguísticos podem dizer sobre o paradoxo chamado sujeito do inconsciente, que nasce no campo da linguagem.

 

Referências Bibliográficas

 

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[1] A expressão impasse subjetivo é uma alternativa aos diagnósticos fechados para as variadas condições de sofrimento psíquico da criança e que são incoerentes com sua condição de sujeito em constituição. Sobre essa condição do infantil, na psicanálise, Bernardino (2004), situando as dificuldades de delimitação do diagnóstico em categorias definidas, propõe a expressão psicoses não-decididas para a infância em referência à posição subjetiva da criança no campo da Linguagem e seus impasses nesse campo. Vorcaro (1999, 2004) utiliza-se dos termos acidentes e desastres como referência às condições psicopatológicas denominadas de autismos, psicoses, fenômenos psicossomáticos e a debilidade mental, considerado-as como hipóteses clínicas.

[2] Referência às questões abordadas pela clínica da linguagem.

[3] Frente a isso, a criança é nomeada de Cadu: nome de ficção.

[4]  Terapeuta.

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