Hæresis Psicanálise

Resenha da Obra “O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogos com múltiplas experiências”

Por Hæresis Psicanálise em 01/04/2018 23:31

Resenha da Obra “O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogos com múltiplas experiências”, de Tânia Ferreira e Angela Vorcaro (Autêntica, 2017, 125 p.)

Por Cirlana Rodrigues

Associação Hæresis de Psicanálise

 

Introdução

 O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogos com múltiplas experiências, de Tânia Ferreira e Angela Vorcaro (Autêntica, 2017, 125 p.)  é uma escrita endereçada àqueles que apostam no autismo como uma condição singular, histórica, afetiva, cultural atravessada por experiências de sofrimento. Como obra é direcionada ao acolhimento, cuidado, escuta e tratamento desse sofrimento na clínica psicanalítica, campo discursivo onde o autismo não é um movimento de genes alterados, ou um cérebro imperfeito em um corpo deficiente.

Furtado (2011) lembra a querela entre autismo e psicanálise, destacando o que ele nomeia de denegação da contribuição da psicanálise quando o assunto é o autismo, fundada no ressentimento do autismo com a psicanálise, nascido de equívocos mal-intencionados como ‘a culpa da mãe’, entre outros. Desde a nota de rodapé de Kanner (1943), onde o inventor da síndrome autística alertava sobre o fato de que algumas mães, daquelas extraordinárias onze crianças, eram distantes, intelectualmente providas, mas afetivamente desprovidas, parte da psicanálise faz sim por merecer essa repulsa, pois comprou e insistiu nisso, tornando uma observação do psiquiatra a regra geral, a causação do autismo.

Sigmund Freud fundou a psicanálise a partir do deixar falar. Mas como deixar falar aquele que não fala [como nós]? Forçando-o e treinando-o a se comunicar? Falar e comunicar são diferentes e os autistas nos mostram isso: há os que falam e não se comunicam em suas ecolalias, apraxias, recusa ao diálogo, com o corpo; há os que se comunicam e não falam, na medida em que o uso funcional da linguagem não responde pelo ‘falar’ com o outro, enunciar-se como sujeito, por vezes se enunciam pelo silêncio; há os que se comunicam e os que falam, que dizem de si e há os nenhum e nem outro.  Interessante que “deixar falar” é apresentar-se à escuta. Portanto, escutar os autistas é o trabalho da psicanálise, o que Lacan insiste que também determina a forma da palavra.

 

Da obra

A experiência na clínica psicanalítica com crianças autistas é o que nos apresentam Tânia Ferreira e Angela Vorcaro (2017), cujo título da obra traz dois signos importantes para a atualidade sobre o autismo: tratamento e diálogo. Apostar que há um tratamento psicanalítico com crianças autistas é supor uma experiência de sofrimento de sujeitos singulares, supor haver nessa estrutura subjetiva nomeada autismo um inconsciente em funcionamento, o que é diferente de apostar em uma espécie de falência neurológica do cérebro dessas crianças causada por um erro genético. O diálogo se apresenta como a tarefa mais árdua, neste momento. Primeiro, porque dialogar sobre as múltiplas experiências de cuidado com essas crianças e suas famílias já é tarefa laboriosa dentro do próprio campo psicanalítico frente ao imperativo das elaborações epistemológicas necessárias. Segundo,  esse signo diálogo nos lembra que – fora desse campo psicanalítico – ele não se realiza e o que vemos, por vezes, é a recusa ao diálogo com a alteridade necessária para se compreender o que se passa com essas crianças autistas em suas experiências de sofrimento, tratando-se de adequar experiências funcionais, experiências de déficits neurológicos e cognitivos e cuja aposta mais perversa parece ser a venda de uma cura genética, a promessa de cura que por ser promessa é um engano: promessas são feitas para não serem realizadas e, nessas condições, essas “criaturas mais complexas” continuarão a ser  “apenas cores e ruídos e sem significação humana“, nos termos usados por Donna Williams, autista que tomou para si o discurso, citada pelas autoras. Sim, autistas têm suas palavras retomadas, citadas, referenciadas.

Trabalho de investigação, a obra O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogos com múltiplas experiências é prefaciada por Katia Alvares que antecipa a singularidade do autismo como a direção do tratamento psicanalítico para crianças alocadas em discursos de categorizações e diagnósticos. Disso, depreendo que na problemática do autismo uma questão merece cuidado, a distinção entre os sintomas da criança e essa criança posta como sintoma do discurso social.

Na Introdução, as autoras Tânia Ferreira e Angela Vorcaro colocam o tratamento psicanalítico com crianças autistas dentro da lógica d’A pesquisa como uma aposta antecipada, dizendo de outro modo, dentro da necessária e permanente investigação do que é ser autista na contemporaneidade, da batalha travada por uma espécie de domínio desse objeto ao mesmo tempo soberano e de posse da ciência, a criança autista. Como psicanalistas, as autoras não se esquivam de considerar que as dificuldades nos percursos dessas crianças e suas famílias não devem ser atreladas à condição do ‘quadro clínico’, onde a pouca evolução no tratamento (uso expressão comum em espaços que visam mesmo a evolução do quadro clínico) é por causa da condição do autismo, da constituição do transtorno, e isso vale tanto para os tratamentos centrados no lógica biológica como para a psicanálise: as autoras insistem que são os procedimentos clínicos e os tratamentos o lugar dessas dificuldades, por isso a importância de uma pesquisa que coloque em cena experiências de cuidado exitosas, não perdendo de vista o que seria exitoso em psicanálise.

Em   Autismos, psicanálise e pesquisa: um campo aberto à investigação e à escuta, temos uma saída para o emaranhado polêmico entre psicanálise e pesquisa acadêmica. Porém, as autoras, ambas com vasta experiência nesse emaranhado, aferram-se em um singular método de trabalho atravessado pela psicanálise e que se estabelece a partir da regra básica da associação livre, onde o ‘deixar falar e o escutar’ direcionam o percurso de pesquisa: “[…] de um lado, a riqueza enorme de questões, proposições, premissas e invenções dos colegas psicanalistas acerca do tratamento dos autistas. De outro lado, a contundência espantosa do que dizem os próprios autistas e seus pais sobre o sofrimento de que padecem e as saídas inventivas de cada um frente àquilo que os acomete” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p.33). Destaco ainda a proposição das autoras para uma transmissão psicanalítica do conhecimento produzido na pesquisa pelas vias de uma escrita que comporte o indescritível da experiência do tratamento psicanalítico com crianças autistas, recolhido dos dizeres dos psicanalistas, e do enigma do autismo recolhido dos dizeres de autistas e suas famílias: é a escrita, nas palavras das autoras, “na sua função do véu do real” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p. 32).

Como um diálogo aberto e franco com o leitor, o que se escreve são duas ousadias: o olhar psicanalítico norteia a investigação com o próprio trabalho psicanalítico e, mais, o quão corajoso é perguntar ao outro o que este tem a dizer sobre o tratamento que lhe foi dispendido: ousadia do campo psicanalítico que não se esquiva de seus atos e supõe saber nos sujeitos, no reconhecimento de sua palavra. Nesses termos, psicanalistas, autistas com suas autobiografias e familiares foram ‘entrevistados’ nisso que compreendo como um processo dialógico cujos eixos norteadores foram as controvérsias e contradições no tratamento psicanalítico com crianças autistas, em que o enfrentamento, neste tempo da história do autismo é, antes, dentro do próprio campo psicanalítico. Sobre a pesquisa em psicanálise, o conhecimento que se produziu não deve ser tomado pelo leitor como um modelo de tratamento na clínica, mas que o compartilhar experiências dessa clínica com crianças autistas possibilita, a nós leitores, o trilhamento de nosso próprio percurso nessa clínica: a invenção de uma clínica com autistas e suas famílias.

 

Sobre Autismo: um conceito ainda impreciso e a contenda do diagnóstico, Ferreira e Vorcaro (2017, p.36) iniciam trazendo um destaque na origem do termo “autismo”: Bleuler “extirpou a partícula central “eros” do autoerotismo freudiano”. À guisa dos fundamentos da noção e dos aspectos do quadro psicopatológico que nasceu enlaçado à esquizofrenia e que com o psiquiatra Léo Kanner ganha autonomia nosográfica apresentado nas páginas seguintes pelas autoras, recorto a retirada, desde sempre, do autismo do campo discursivo da psicanálise, o que a obra aqui resenhada enfrenta e recusa, teima que sujeito autista ama a si mesmo, antes de tudo. Esse psiquiatra austríaco distancia o autismo das psicoses infantis, mas destaca que recebeu as onze crianças sob a égide de “idiotas ou imbecis” e, para as autoras, “não são outros os ventos que sopram” (p.36), pois atualmente o autismo se encontra sobre a determinação da lei que o reconhece como uma deficiência neurológica, emaranhada à dita deficiência intelectual,  apagados subjetivamente e, ainda mais, atrelados a tratamentos que recusam sua singularidade e a torna  ilegal, marginal: sigamos com Kanner que olhou detalhadamente para cada uma dessas onze crianças e recusemos esse “autismo” da lei da política pública e vamos perseverar no “aut(oero)tismo” da lei simbólica, fundante desses sujeitos.

Aprofundando na leitura do texto instaurador de discursividade de Léo Kanner (1943), Os distúrbios autísticos de contato afetivo, Ferreira e Vorcaro (2017)  discorrem sobre os aspectos fundamentais dos modos de funcionamento autista, afastando-o tanto do retardo como da esquizofrenia, destacando as precocidades sintomatológicas lá nos primórdios da vida psíquica onde se vê no bebê a ausência da atitude antecipatória, a particular relação com  a linguagem, esta que escapa ao limite aporte dos processos comunicativos e aos limites dos sentidos oferecidos pelo outro, o horror de ser invadido com que crianças autistas tomam os ruídos e os movimentos dos objetos, o que vemos ser, por vezes, reduzido a uma falha sensorial na criança e, possivelmente, a mais elementar e fundamental característica da estrutura autística: a imutabilidade, uma espécie de paixão obsessiva de permanência que pode se expressar pelas conhecidas estereotipias, movimentos repetitivos que se nomeiam como disfuncionais, automutilações, entre outros sintomas, mas essa paixão pode se expressar pela insistência necessária de uma repetição monótona, de uma organização muito particular de seu mundo físico e psíquico.

Nesse ponto da obra, as psicanalistas ampliam a discussão sobre o diagnóstico no autismo, a partir de Kanner, trazendo outras questões acerca da alfabetização e leitura dessas crianças e suas dificuldades  na entrada em uma nova ordem de linguagem, sobre a importante questão da relação com os objetos para o tratamento psicanalítico, em torno do diferente modo de relação dos autistas com as pessoas, e dizer diferente não é dizer impossível, e do reconhecimento de habilidades cognitivas que distancia essas crianças da idiotia. Ainda, as autoras ressaltam no trabalho de Kanner tanto o aspecto inato da síndrome, como o aspecto relacional, ponto polêmico que muitos tomam como antitéticos, insistindo equivocadamente ou no biológico/inato ou no relacional. Ao longo dessas elaborações, as autoras vão amarrando testemunhos de autistas como Grandin, Nothomb, Higashida e familiares acerca de suas experiências muito particulares com cada um desses sintomas autísticos. É justamente nessa particularidade de cada autista o lugar do tratamento psicanalítico e, na aposta aprendida com Kanner, de que esses sujeitos podem, cada um a seu modo fascinante e particular, caminhar pela vida.

O que os autistas nos ensinam é um título que anuncia um dos pontos mais importantes da pesquisa psicanalítica feita por Tânia Ferreira e Angela Vorcaro (2017): a suposição de saber nos sujeitos, ponto tão caro à clínica psicanalítica e miolo do que as autoras discutiram no item anterior, do encontro entre psicanálise e pesquisa. Nessa parte da obra trata-se de trazer à cena, setenta anos após Kanner, o que elas nomeiam como “soluções dos autistas” para o poço obscuro do autismo, a saber, aquilo que os exila, os isola dos discursos, do Outro como alteridade e do mundo. A partir da escrita de autistas e seus pais, as autoras investigam aspectos do tratamento psicanalítico como o autista e seu funcionamento, a questão do diagnóstico e seu efeito na criança e na família, e as noções psicanalíticas da clínica como o olhar, a voz, o Outro, a linguagem e os objetos, o corpo e seus avatares, a relação com o tempo e o espaço, a hipersensibilidade a ruídos, cheiros, tatos. É o momento em que as autoras nos apresentam a noção psicanalítica de autismo, na contramão de um conceito de doença a ser extirpada: “para a psicanálise é um trabalho de autotratamento daquilo que sidera, avassala e consome o sujeito: o Real” (p. 53). O autismo entra na lógica da psicanálise, onde sujeito é a resposta de cada um ao Real, ao que nos causa e nos acomete por ser uma presença em ausência, muitas vezes difícil de suportar. Para esses sujeitos essa resposta está centrada em si mesmo, não direcionada ao mundo e ao outro/Outro, como vemos nas outras estruturas: o aut(oero)tismo freudiano tem aí sua realização. Ao escutar de pais e autistas o drama de sua entrada no poço obscuro do autismo (palavras de uma mãe que as autoras nos trazem) o que temos é um texto que além de nos ensinar de que se trata esse poço obscuro, de como atravessar esse caminho e, para além dele seguir a vida, nos coloca em uma ordem do discurso marcada pela singularidade e pelos afetos. Todos nós que lidamos com crianças autistas e suas famílias, apostando nessa singularidade, somos tomados por essa ordem. No tratamento psicanalítico com crianças autistas trata-se de insistir que esse discurso circule, de insistir que o saber parental faça as vezes do simbólico: essa direção de tratamento vai na contramão do que se estabelece, onde especialistas negligenciam e apagam essa suposição de saber dos cuidadores sobre seus filhos, modo perverso de fazer prevalecer o seu conhecimento. Segundo Ferreira e Vorcaro (2017), a função do analista diante desse obscuro, das repetições sem fim, é de escutar aí o singular, o que pode advir do obscuro.

Os testemunhos trazidos pelas autoras nos ensinam e nos emocionam e, a muitos, podem despertar certa incredulidade: então, como as autoras, vamos escutar, no dia-a-dia da clínica com crianças autistas seus dizeres e de suas famílias e como os pais, saber respeitar as saídas que essas crianças arranjam, sem encobrir o que é de Real.  A experiência de angústia dos pais frente ao diagnóstico, assim como o cotidiano da relação com o filho, os colocam em uma espécie de via crucis, uma jornada errante indo de especialista em especialista. Realidade vendida como fórmula de tratamento pelas políticas que investem não em sujeitos, mas em enganos, na determinação infundada de que apenas este ou aquele método comportamental serve para o autista: escutando-os, parece que quanto mais especialistas, mais apagamento. Em seu silêncio, o autista vai lidando com o seu impossível de suportar e a entrada na clínica se dá mediante a experiência de sofrimento de cada um, pois a clínica psicanalítica trata daquele que sofre nesse trato com o impossível de suportar: um exemplo desse autotratamento gestado em uma sabedoria silenciosa são as autobiografias lidas pelas autoras, e tantas outras que são publicadas, o que nos leva a apostar em um caminho sem volta na entrada nos discursos de autistas e suas famílias. Na clínica cotidiana, essa sabedoria silenciosa se apresenta nos gestos mínimos surpreendentemente direcionados ao outro, na imitação inesperada, nas palavras soltas, mas endereçadas pelas voltas que dá, nas primeiras onomatopeias, no silêncio quase pensativo durante a organização dos objetos que encontrou em outra ordem, no sorriso, no jubilo [mesmo que alucinatório] diante do pequeno espelho, entre tantos outros gestos e dizeres.

Acerca d’A psicanálise e os autismos, Ferreira e Vorcaro (2017) discorrem sobre o enigma do autismo e seus efeitos no campo psicanalítico. Iniciam a exposição colocando em cena os impasses do diagnóstico em vários campos e suas incidências na psicanálise, onde a insistência na origem orgânica, reduzindo o autismo a um cérebro sem vida acaba por apagar a subjetividade (vida psíquica e não apenas comportamental e fisiológica) que os autistas e suas famílias testemunham e que as autoras nos antecipam. A partir de autores como Anserment e Giacobino, a querela do diagnóstico e a causa orgânica para o autismo tendem a desabonar modos de tratamento centrados na subjetividade do autismo, como a psicanálise, aliás, principalmente como a psicanálise. As autoras fazem um importante esclarecimento sobre essa questão: “Interessante lembrar que em relação aos autismos, Kanner, já em 1943, nos dizia que o autismo demonstra a inutilidade de manter uma distinção entre o orgânico e o psíquico. Como sua etiologia é variada, a polêmica ainda sustentada por alguns profissionais de ser orgânico ou psíquico torna-se sem sentido. Podemos falar de diferentes tipos de autismos. Daí a utilização do termo “autismos”, no plural” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p.68). Pluralidade parece ser uma característica insuportável para aqueles que tomam o autismo como um cérebro sem vida, conforme mencionam as pesquisadoras. Todavia, o que testemunham autistas e seus pais, e a clínica psicanalítica é que nos autismos a vida pulsa, ecoa, consoa e ressoa. Uma espécie de ciência desvairada quer manter-se no controle da vida e do afeto desses sujeitos às custas de impor, pelas vias políticas, a definição do autismo como deficiência, e não pela via da clínica. Assim, possuidores do poder que a política e seus arranjos lhes concedem fixam a essas crianças um destino obscuro.

Na sequência, as autoras abordam o aumento no número de casos de autismos, quase endêmico, o que podemos não apenas supor efeito da antecipação para a primeiríssima infância de critérios precoces de diagnósticos, mas também efeito da ampliação dentro da lógica do espectro, onde sintomas comportamentais que coexistem em diferentes condições psicopatológicas são alocadas pela política do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) dentro do Transtorno do Espectro Autista [TEA]. Indo adiante, Ferreira e Vorcaro (2017) apresentam as definições e aspectos da abordagem psicanalítica para os autismos, iniciando com o nó dentro da psicanálise acerca da tomada do autismo como uma quarta estrutura subjetiva, onde ainda há os que negam mesmo essa estrutura e, também, os que colocam o autismo como uma existência dentro do campo da psicose: as autoras sustentam na história de seu trabalho que o autismo não é psicose, sendo essa a hipótese  a prevalecer dentro do campo psicanalítico. Questão importante, pois o reconhecimento do modo de funcionamento psíquico de cada sujeito autista é determinante na direção de tratamento, é reconhecer a singularidade no autismo. Dada a envergadura da questão, as autoras não se detêm nela, o que ultrapassaria o escopo da obra.

A causa do autismo é um enigma áspero para os psicanalistas. O leitor, ao repostar-se às páginas seguintes, irá se deparar com controvérsias e, por vezes, contradições entre os psicanalistas, mas a psicanálise de orientação lacaniana, no que tange à causação do autismo parte de uma hipótese nuclear: as causas do autismo convergem para as operações de constituição do sujeito, como nas outras hipóteses psicopatológicas, todavia, no autismo as vias que o pequeno sujeito percorre em sua constituição são tortuosas de modo muito precoce, nas primeiras operações iniciadas no estádio do espelho. Elas recorrem a autores como Lacan, Laznik-Penot e Vorcaro para ampliar esse ponto, o qual o leitor merece se remeter para levar adiante a discussão e a proposição levantada por elas acerca do autismo e da constituição do sujeito, em psicanálise, em que o fundamental é reconhecer o sofrimento do sujeito nos autismos e o trabalho e invenções desse sujeito e seus arranjos “frente ao que o aprisiona, o que não podemos negligenciar ou interferir sem um cálculo clínico – cuidado e delicado” (Ferreira & Vorcaro, 2017, p. 87).

Ferreira e Vorcaro (2017) encerram a obra com uma discussão em torno daquilo que se depreendeu da pesquisa feita, e a justificou, O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogo com múltiplas experiências, de modo específico, no trato com as crises do sujeito nos autismos, onde a relação com a noção psicanalítica de pulsão supõe não calar essas crises, escutá-las, pois ocorrem ali onde o verbal dá lugar ao irredutível. Partindo das elaborações de Diana Rabinovich sobre a clínica das pulsões, onde essa autora discorre sobre o que chama de impulsões como aspectos das patologias do ato, interessa às autoras o sujeito mudo da pulsão, aquele no lugar do sujeito desejante. Na clínica com os autismos, é desse sujeito que se trata, não apenas comportamentos e estereotipias, mas a clínica psicanalítica avança ao reconhecer esse sujeito mudo em movimentos e ações enlouquecidas, desordenadas se sem sentido: “Qual de nós, na clínica com autistas, nunca deparou com uma criança debatendo-se, gritando desesperadamente, andando de um lado a outro, freneticamente, batendo em si ou no outro, mordendo-se, agitando-se indefinidamente?” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p.90). Todos nos deparamos com o autista, sujeito mudo. Essas crises constantes levam as autoras a questionarem sua importância para o psiquismo de um autista.

Desse ponto em diante da obra, as psicanalistas investigam sobre o tratamento psicanalítico possível desse sujeito mudo, em crise constante para manter-se vivo como subjetividade, tendo como objetivo formalizar as crises para o sujeito autista. As autoras trazem as falas dos autistas sobre o que lhes acomete nesses momentos de crise e como as compreendem e, também, trazem as falas dos psicanalistas sobre os efeitos desses atos enlouquecidos que não entram nas trocas simbólicas, onde nos lembram, os autistas, que o Outro é ausente. A hipótese das autoras é a de que na força desses atos, dessa agitação, o sujeito busca, de modo paradoxal, um corte fundante na linguagem, ali onde não haveria essa marca simbólica. E diante dessa hipótese, Ferreira e Vorcaro (2017, p.91) sustentam que a crise de um autista não deve ser calada ou contida, mas compreendida como um trabalho desse sujeito mudo, “um ato vivo através do qual um sujeito se cria e se anima”, uma invenção diante do Real irredutível, posso sustentar a partir dessa hipótese. Ainda, interessante como neste ponto da pesquisa psicanalítica sobre os autismos e seu tratamento na clínica psicanalítica, a suposição de um sujeito mudo, como levantada pelas autoras, mereceria ser elaborada em articulação com as proposições de Jean-Claude Maleval sobre a voz nos autismos: voz é objeto pulsional.

Voltando às elaborações de Ferreira e Vorcaro (2017), estas levam adiante, nas páginas seguintes da obra, a construção necessária sobre impulsões e sua diferenciação do acting-out, do ato e da passagem ao ato, em toda a complexidade tal como elaboradas por Sigmund Freud e Jacques Lacan, visando compreender o que se passa com o sujeito autista no que se refere à modalidade de resposta dessas “ações enlouquecidas”, o lugar nessas ações desse sujeito e se são articuláveis como estrutura e ato. As autoras fazem, mediante a investigação que desenvolvem, uma fundamental questão, situando  a crise na invenção do autismo diante da angústia do Real: “Essa espécie de ‘crise permanente’  a que crianças autistas estão submetidas não seria, ela mesma, um modo de fazer frente nos moldes da passagem ao ato, à demanda asfixiante do Outro e à angústia avassaladora” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p.95): a função da crise no psiquismo de um sujeito autista é de apaziguar o sofrimento, não podendo ser calada, mas sim acolhida na escuta de sua existência singular.

Mediante esse reconhecimento da função da crise nos autismos, Ferreira e Vorcaro (2017) mostram o recurso do duplo como aquele a ser colocado a trabalho na invenção dos cuidados a esse sujeito mudo cujas soluções podem ser crises angustiantes e infindáveis: sem o recurso da fantasia/do fantasma, o que inventa o sujeito autista? Esse sujeito faz apelo ao duplo como arranjo contra a angústia, ali no vazio da linguagem. As investigadoras partem, como vêm fazendo desde o início da obra, de Freud e Lacan, para levar adiante essa hipótese do duplo como recurso no autismo e passam ao que os autistas dizem sobre sua experiência subjetiva e à distinção feita por Jean-Claude Maleval nesses autistas de suas criações dos duplos: a experiência de estranhamento e autorreconhecimento possível desses sujeitos, experiência de proteção por meio de objetos, animais, máquinas. Aqui vale lembrar, como as autoras, que a retirada de objetos dos autistas pode ser uma experiência de extrema angústia, na medida que se realiza como a retirada de sua borda, de sua proteção subjetiva. Contudo, nesses duplos, os autistas desaparecem para o mundo, cerne da estrutura autística e de seu gozo mortificador, e paradoxo dessa clínica cuja saída possível, indo com Maleval, é a aposta das autoras no que se compreende como Outro de síntese, e que compreendo como aquela escolha intelectual do autista, a montagem que ele mesmo realiza de uma alteridade de peças encaixadas, onde junta pedaços do mundo para fazer ver nele um pedaço de si, seu duplo suportável.

Do recurso do duplo, Ferreira e Vorcaro (2017, p.100) trazem à cena do tratamento psicanalítico de autistas, o corpo do analista que pode vir a fazer função desse duplo, conforme experiência de alguns dos psicanalistas entrevistados, onde esse corpo é oferecido ao trabalho do autista: “a clínica do autismo é uma clínica com o corpo do analista”, ativo e que se movimenta, se liga, ampara e serve de anteparo para a criança autista em seus movimentos, em seus jogos, em seu equilíbrio, em sua mistura com os objetos presentes, nas trocas sensoriais, nas recusas. Todavia, vale lembrar que é a criança autista que estabelece a aproximação e a distância, o que suporta e o que precisa colocar a trabalho.

Do analista e da criança autista, as autoras vão discutir a expressão “prática entre vários” e a entrada desse dispositivo no tratamento de crianças autistas, usado quase como regra geral principalmente em instituições públicas: o destaque é dado à “transferência diluída” entre vários, o que pode apaziguar os efeitos do Outro invasivo.  O trabalho do analista consistiria em ser raro, sútil, não invasivo: “O analista precisa estar tão delicadamente assentado, que sua voz, seu olhar, qualquer insígnia de sua presença deve ser calculada clinicamente” (Ferreira e Vorcaro, 2017, p.101). Supondo o sujeito mudo, trata-se de silenciar-se para escutá-lo ali onde o Real faz ruídos no corpo: na voz, no olhar, nos movimentos, nas crises, na distância necessária do Outro. Ainda discorrendo sobre o tratamento psicanalítico com crianças autistas, as autoras retomam a importância da dita intervenção a tempo (expressão alternativa a intervenção precoce) com bebês que se apresentam nas vias de um autismo e crianças pequenas, onde o trabalho deve operar no tempo exato de sua constituição psíquica, supondo um sujeito ali sob riscos de apagamento subjetivo: campo aberto e fértil dentro da psicanálise.

Nos dois itens finais da obra, Ferreira e Vorcaro (2017) se debruçam sobre as premissas do tratamento psicanalítico com crianças autistas propondo uma clínica de detalhes, um tratamento para cada criança autista. Sobre as premissas do tratamento psicanalítico, as autoras destacam, considerando as contradições e divergências no campo da prática clínica psicanalítica, a fala dos analistas e dos autistas, e se recusando a prescrever o melhor tratamento: a psicanálise tem um corpo teórico que sustenta o ato analítico; há um sujeito nos autismos e é com ele que lidamos no tratamento psicanalítico, sujeito mudo a ser escutado, posso inventar com o dito das autoras; interessa-nos a resposta que cada criança deu ao que foi previamente oferecido a ela, pois, é sempre o sujeito que se articula ao que lhe é dado ou não; cada criança determina o modo de aproximação com o terapeuta trazendo o que será o operador de tratamento; acompanhar o sujeito em seu trabalho diante do difícil de suportar, acompanhá-lo em seu modo particular de estar no mundo, pois eles nos contam o que lhes faz sofrer; seus sintomas e comportamentos que para muitas teorias devem ser extirpadas, para o psicanalista é trabalho do sujeito em suas saídas subjetivas e devem ser escutadas até que o autista deles possa prescindir e construir novas saídas.

Ferreira e Vorcaro (2017) formalizam em sua pesquisa psicanalítica a direção de tratamento da criança autista. Nessa direção de cuidado, alguns vetores escutados nas falas dos psicanalistas em suas experiências com as crianças autistas: o psicanalista não demanda à criança o que fazer; atentar para a modulação da voz, para aquelas crianças onde o  objeto voz lhes é invasivo; o analista não encara uma criança autista, seu olhar acompanha o trabalho em que se coloca o pequeno sujeito;  deixar cair o fascínio por essas crianças, onde a presença do analista é suportável pela criança autista; a estimulação sobre o corpo do autista, o toque no corpo desse sujeito é recebido sempre de modo invasivo (este é um dos aspectos mais controversos das proposições das autoras, na medida que é pela verve da estimulação sensorial que se sustentam os trabalhos de reabilitação de crianças autistas e, quiçá, bebês com sinais de alerta para dificuldades no neurodesenvolvimento); cabe ao analista manejar os objetos autísticos e a imutabilidade constitutiva desses sujeitos e não destituí-los disso, na medida em que a psicanálise entende isso como organizadores psíquicos nos autismos; cada criança interroga  o saber especializado sobre si e nos interroga em nossa teoria: lugar de sua invenção e não de pura expressão de seus sintomas patológicos, como as crises; não é função do analista impor regras de comportamento a essas crianças, na medida em o Outro lhes é insuportável; o trabalho com o duplo, a ‘extração do objeto’ (ou sua suplência, onde a criança cederá algo ao analista entrando no laço social, se distanciando de saídas como as automutilações) e a importante construção da imagem corporal são operadores no tratamento psicanalítico; acompanhar o circuito da voz e do olhar da criança, em sua função de objeto pulsionais; em transferência, o analista valida o ato do autista; pela voz do autista, o analista é convocado a compartilhar aquela enunciação fugaz, imotivada e esse convite pode ser porta aberta para a transferência; o paradoxo do autista em sua necessidade e em sua recusa com o campo do Outro, com o discurso é tratado na clínica psicanalítica não pelas vias da imposição do laço social (da boa interação), mas pela construção de uma borda para o corpo do autista onde esse Outro invasivo possa ser acolhido sem sofrimento, tendo como limite o suportável para esse sujeito.

Encerrando a obra, e não as questões levantadas na pesquisa realizada, e menos ainda o trabalho na clínica psicanalítica com a criança autista, Ferreira e Vorcaro (2017) tocam em um ponto de tensão, a inclusão de crianças autistas na escola, buscando o que pode a psicanálise contribuir na lida com a angústia presentificada no que muitos educadores perguntam: o que e como fazer? Para esses educadores, o autista também é um enigma e como encarna a presença do vazio, nos mostra a dimensão do que Freud disse sobre a educação como impossível. As autoras lembram do fracasso de nosso sistema educativo que a criança autista na escola só faz escancarar: o apagamento da singularidade na infância. Ressaltando que a lei da inclusão escolar apenas garante a entrada dessas crianças na escola, as psicanalistas vão se colocar a trabalho diante do fato d’a exclusão dos autistas “Na escola”, exclusão essa que se realiza de diferentes modos: estão na escola, mas fora da sala de aula; a dificuldade na construção dos projetos pedagógicos; as tentativas de adaptar a criança à escola. Trata-se de se perguntar como uma escola se adaptaria a uma criança autista, como a descobria: gestos de reconhecimento do que a faz sofrer e do que apazigua o seu sofrimento; retirar o manto da deficiência e da incapacidade que tampona suas possibilidades criadoras (são crianças, portanto, se fundam na criação); não recorrer à imposição do laço; e, menos ainda, à medicalização de sua vida; a experiência no encontro com as outras crianças, estas crianças que incluem.  Ainda, as autoras lembram que, a seu modo, a criança autista se exclui desse sistema educativo e isso pode justificar os impasses e fracassos anteriormente mencionados, mas podem nos levar a perguntar qual caminho a ser construído com essa criança para que esse silêncio excludente seja rompido, trazê-las para dentro da escola, pois caso não se faça isso, todo projeto de inclusão será fracassado. As autoras mostram que a angústia provocada pelo enigma do autismo no educador pode ter como saída a conformidade com o fracasso, a frustração por não conseguir exercer sua função de educador.

Nesse ponto, a psicanálise ajuda a compreender que os enigmas não necessariamente são resolvidos, mas sempre nos colocam a trabalho, nos colocam no caminho de construções e invenções, de atravessar rompendo o Real que insiste, terminando com Sigmund Freud e Jacques Lacan, referidos por Ferreira e Vorcaro (2017).

 

  

Considerações Finais

Com a escrita do saber sobre o tratamento psicanalítico com crianças autistas, depreendido da escuta dos autistas, familiares e psicanalistas, Ferreira e Vorcaro (2017) abrem o caminho para o debate, provocam elaborações e insistem que “cada psicanalista, cada instituição, cada serviço de atenção a crianças autistas possa interrogar seu fazer, no compromisso com o melhor tratamento que pudermos ofertar” (2017, p.102).

Finalizando, destaco três pontos explorados na obra de modo contundente em um estilo que atesta e ratifica que há sim uma clínica psicanalítica com o autismo: a psicanálise como campo de pesquisa, os fundamentos teóricos sobre o autismo e a formalização do fazer nessa clínica, enlaçados pelos testemunhos dos autistas e suas famílias, e dos psicanalistas.

Como psicanalistas, Tânia Ferreira e Angela Vorcaro escutam o sofrimento, os impasses e os enigmas na clínica com crianças autistas e suas famílias e, por serem psicanalistas, se colocam a trabalho a partir mesmo disso: se o autista precisa ir recusando o Outro e ir se aproximando do Outro, o psicanalista precisa seguir essa alternância escrevendo, bordeando o enigma dessas crianças.

 

Referências Bibliográficas

FERREIRA, T. e VORCARO, A. R. O tratamento psicanalítico de crianças autistas: diálogos com múltiplas experiências. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

FURTADO, L. A. R. Sua majestade o autista: Fascínio, intolerância e exclusão no mundo contemporâneo. Tese de doutorado – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2011. 205 p.

KANNER, L. Os distúrbios autísticos do contato afetivo. In: ROCHA, P. (Org.). Autismos. São Paulo: Escuta, 1997.

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