Morte, letra do desaparecimento e Certeza, significante do irredutível[1]
Cirlana Rodrigues de Souza
Começando pela neurose obsessiva
A neurose obsessiva é complexa de escrever e quem o faz está em risco de se emaranhar em torno da questão do desejo, de modo imaginário: tentativas de explicar, de interpretar, escrever e relacionar os elementos que nela se apresentam, acompanhando a sempre bem narrada história do sujeito obsessivo, de seu mito individual (Lacan,1952/2008), onde não seria nem isso e nem aquilo.
Se para o obsessivo seu desejo é do legado estrutural do impossível, a transmissão do caso, via escrita, coloca o analista a escrever como extensão da análise onde se trata de reconhecer esse desejo, e não o desejo de reconhecer que o levaria a produzir teoria, o que procrastinaria, na escrita, o encontro com a falta. Lacan (Seminário, As Psicoses/1955-1956/1997, p.199-200), retomando Freud, diz que tanto o sujeito histérico como o sujeito obsessivo usam o Eu para colocar em cena a questão de seu desejo, pois como estrutura a neurose “é essencialmente uma questão”. Para o primeiro, trata-se de uma questão sobre o sexo, na sentença “O que quer uma mulher? ” (Idem, p.198), ou seja, uma questão sem fim, mas que é colocada. Para o segundo, trata-se de uma questão sobre a existência, sobre seu desejo que está no Outro. Leclaire (1956, 1977) a formula como uma questão direcionada ao Outro: “Estou vivo ou estou morto? ”. Ao contrário do histérico que a encarna e goza no corpo essa dúvida, o obsessivo a evita, pois goza com a dúvida bordeada pela vida e pela morte. O obsessivo inventa, então, uma língua oblativa para falar disso, evitar o encontro com o seu desejo.
A escrita em torno dessa questão, por esse sujeito, é sempre voluntariosa, objetiva, oferece aos analistas todo o deslocamento e condensação ideais para as associações e interpretações, para as explicações dos sintomas, para a resolutividade de seus suplícios, o que podemos ver na bela história clínica de Ernst Lanzer, o homem dos ratos, escrita por Freud (1909/2013). Mas, o impossível de seu desejo não seria aí tamponado por todos os signos metaforizados e por todos os significantes deslocados no fluxo e influxo dessa língua? Diante dessa dúvida, a proposta é refletir sobre a escrita como topologia, onde a formalização é mesmo dar forma em torno desse impossível e a questão a ser evitada ganha gestos de real, simbólico e imaginário localizando, como falta, aquilo que lhe causa. A topologia lacaniana (1975-1976/2008) é para tentar saber-fazer em torno das inscrições de falta e da falta da falta, marcada pelo objeto a, falo, gozo do Outro barrado, não sentido. Assim, o obsessivo reconheceria que seu desejo localizado no Outro está localizado em si e a proposta é que em suas falas objetivas, claras, elaboradas, em suas histórias bem narradas, encadeadas em que não haveria dúvidas, poderia ser lido a negativa desse desejo: uma denegação radical, negativa dessa negativa como marca dessa impossibilidade dita e escrita aos moldes de uma assertiva negativa, quando a oblativa comporta em si o impossível: é essa condição de falta a ser elidida na narrativa do obsessivo, e não mais os sentidos, as associações e a explicação de seus suplícios.
- James Stevens e o vestígio de seu dia
Trago recortes das narrativas de um jovem que chamo de James Stevens, como a personagem de Antony Hopkins, no filme Vestígios do Dia (1993): é voluntarioso, procrastina seu desejo em nome de um Outro/Mestre que não reconhece estar morto e que também não reconhece ser cruel, inteligente do tipo que a razão é infalível, é daqueles sujeitos que são onde pensam, a dúvida do Outro sobre ele pode enlouquecê-lo; passa seu tempo provando a certeza de todas as coisas, se recrimina o tempo todo, goza na culpa e chegar ao que quer é aterrorizante.
James, deste caso, repete, que vive para prover a mãe, depois pai e irmãos, de uma vida melhor e como isso lhe satisfaz, como é feliz pensando e fazendo isso. Em determinado momento, no entanto, já é possível escutá-lo dizer que não quer mais ficar dizendo aos amigos o que devem fazer de suas vidas, não quer saber disso, pois depois “quem tem ataques de pânico é ele”, diz que não “quer mais esse lugar”, mas não saber que lugar é esse lhe é constrangedor, quando a questão lhe é feita. James farta-se de sua capacidade intelectual: já fez uma faculdade, mas se recusa a seguir essa carreira. Esse James, ao contrário da personagem do filme, não quer ser mordomo, quer ser o Senhor. Mas, seus sintomas e sofrimento, que o levaram à análise, lhe dizem que para ser Senhor precisa reconhecer que o Senhor está morto. Por ora, é mesmo Escravo, do tipo não feliz. Problemática difícil para alguém que quer ser grande, quer ser médico; aos dezessete anos não quis prestar prova para a faculdade de medicina: a culpa e a autorecriminação lhe diziam que seria um alto custo para a família; foi aprovado em uma faculdade de medicina, fez matrícula, mas entre deixar o que estava fazendo e fazer o que queria, não foi adiante, continuou onde estava. James vem deixando para depois seu desejo de ser Senhor sobre a vida e sobre a morte, de ser médico, mas um médico “bondoso, humano e religioso”, ele diz. Sobre isso que se inscreve entre a necessidade e o desejo de um obsessivo ele está, novamente, diante desse encontro, mais uma vez, no gozante lugar de evitar o que quer: segundo conta, a culpa, dessa vez, é das linguagens, das interpretações, dos muitos sentidos que lhe escapam, muito daquilo que é onde não se pensa. Ao narrar isso que lhe ocorreu em pensamento, conta que começou a ‘sentir de leve’ um pânico, pensou em se sentar na calçada, mas decidiu ir adiante: vestígio desse dia de buscar o que quer.
- 2. O que o leva à análise é a produção de sintomas
O que o coloca em análise é ir dessa produção de sintomas a direcionar a questão de seu desejo ao analista. Quando chega, diz: “Eu tenho meu diagnóstico: tenho ansiedade e fobia, de achar que vou morrer”. Sintomas que o faziam girar em torno de suas causas: dizia não entender porque sentia isso, pois tudo ia bem e a sexualidade não é um problema. Se apresenta dizendo que é uma daquelas pessoas que sempre quer alguma coisa. As tantas certezas que tinha lhe faziam sofrer, pois faziam função de tamponar a dúvida, de tamponar o que queria em sua narrativa para evitar que alguém, de fato, lhe perguntasse o que queria. Essa Certeza obsessiva [de que vai evitar o desejo] colocava em cena o fazer o bem ao outro, sempre seguido de dores pelo corpo, de ruminações em torno do que foi feito e repetições paralisantes. Assim, o fluxo de sua narrativa ia de signos como “penso”, “sei”, “refleti”, “quero”, “lembro”, “explico”, na língua de seu imaginário e de sua alienação narcísica, ao atravessamento de esquecimentos de contar algo importante, quando a falta comparece nessa língua, dando a ver um sujeito ali onde não pensa. Disso que fura seu imaginário, o laço com o Outro vai sendo enodado pelo medo da morte riscada nas muitas preocupações com limpeza, com as pessoas ao seu redor, no que pensam dele, no sentir-se sujo antes e depois do sexo. Para ele, “Isso é pior que a morte”. No encadeamento desse discurso oblativo e imaginário, é possível traçar um enodamento borromeano: nele, destacou-se o significante Certeza. Toda vez que esse significante deslocava, se deparava com a Morte: a morte do avô, sua sensação de morte eminente, a morte da mãe da amiga, a morte no sexo, e tantas outras mortes. Umas causando terror. Mas outras dispararam episódios fóbicos intensos (gozo no corpo), seguidos de um cotidiano às voltas com obsessões de toda ordem. Foi desse significante Certeza que extrai o irredutível de sua narrativa atraída pela falta, esta como presença vazia na letra Morte: certeza fazia corte, pois sempre caia ao ser tocada pelo irredutível da Morte, que como letra escrevia o limite entre ele e seu desejo. Na estética ficcional dessa personagem, significante e letra, em meio a tantos signos, se entrelaçam para bordear esse impossível de nomear: a angústia que vai se inscrevendo ali onde é só gozo.
Tornar caso clínico essa narrativa de um sujeito às avessas com suas certezas que vão caindo é escrever sobre isso que cai nas cenas obsessivas onde o que mata é seu gozo: é o que lhe causa, índice do objeto da angústia [objeto a]. Nesse movimento da escrita que vai fazendo de si, a questão de seu desejo ganha direção ao Outro quando um signo como “inquietude” toma lugar onde antes havia “ansiedade”. É essa inquietude que instaura a distância entre a necessidade e o apelo, instaura o lugar de seu desejo. Mas, Isso o assombra: melhor dizendo, o Outro, ainda bem vivo, o assombra como na conversa com a mãe sobre a possibilidade de ir embora, estudar em outra cidade, ao que ela o adverte sobre o perigo de tais “profecias”.
- A formalização em torno da dúvida metódica
A escrita dessa ficção é escrita do não-todo, na direção da formalização. Na neurose obsessiva, essa ficção comporta a morte ali onde haveria fantasia, sendo preciso não deixar de ver com Lacan (Seminário 5, as formações do inconsciente, 1957-1958/1999, p.421) que fantasia “é o imaginário aprisionado num certo uso de significação”. Esse encontro do imaginário e do simbólico é permeado pelo assombro de um supereu, e o efeito disso é uma eterna distância entre sujeito e objeto, sem que se liguem pela fantasia (como na fórmula $ <> a). Responder ao “Que queres” impõe ao sujeito reconhecer-se como desejante, onde a suspensão da razão e dos sentidos, sua afânise, terá efeito, para o obsessivo, de reconhecimento da morte do Outro, morte que por ser simbólica deixa marca vazia. Dessa afânise, o que se espera nesse reconhecimento de si, é que o sujeito ateste que sujeito e Outro é Um, que matar esse Outro não o afastará de seu desejo, de fato irá colocá-lo diante da falta que lhe causa, travessia necessária.
Da língua da neurose obsessiva, rica e assertiva, é preciso ler onde nela se inscreve a falta para além do jogo de linguagem da denegação freudiana, talvez simples demais para o obsessivo. Freud (1909/2013) conta de um homem que após narrar um sonho erótico diz “Não era minha mãe” e acrescenta que essa negação permite ao sujeito dizer a frase proibida: “Era minha mãe”. Minha proposição, aqui, é a de que o sujeito, diante da questão de seu desejo, deveria ser escutado na questão de quem é esse sujeito, nas fundamentais relações de identificação com esse outro/Outro (semelhante, nas inscrições narcísicas e alteridade, nas inscrições do desejo). Predicar-se em relação ao outro não é tarefa fácil para aquele ensimesmado em si. Com Lacan (no Seminário sobre a Identificação, 1961-1962/2003) é possível ver que uma narrativa escrita na fórmula imaginária A é A, onde ‘eu sou onde penso’, tampona com toda consistência que lhe é característica o lugar da falta, “tenho ansiedade e fobia”, dizia o jovem. Essa narrativa é tocada por uma “inquietude” que assombra o sujeito, na fórmula da identificação simbólica A não é A, onde o sujeito se reconhece na alteridade com o Outro, no estranhamento de si. Todavia, na neurose obsessiva esse reconhecimento enreda o sujeito nesse Outro, o enreda na fantasia que lhe é possível: ser escravo desse Outro, para ali gozar na afânise que só faz realçar essa impossibilidade. Escutar a questão da existência do sujeito obsessivo, se está vivo ou se está morto, é localizá-lo em relação ao que ele é, saída dessa escravidão, na fórmula da não predicação, A é não A, que hipotetizo a partir das elaborações de Safatle (2006), naquilo que a negatividade como marca da falta da falta impõe na língua para além da negação radical na psicose, da denegação na neurose e do desmentido na perversão. Incialmente, trata-se de considerar a escrita como uma assertiva negativa, na língua da neurose obsessiva, onde a falas objetivas e tomadas de certeza comportariam, nessa estrutura, uma negativa, uma marca da necessária morte, marca da presença vazia do real (Safatle, 2006): um outro modo ir deslocando a denegação até essa presença vazia que permitirá ao sujeito dizer que esse Outro, enfim, está morto. James Stevens, do mito do neurótico que aqui se escreve, diz várias vezes: “Eu não queria que minha mãe morresse antes de mim”. Dessa fala imaginária pode-se, seguindo os passos associativos de Freud, depreender a frase proibida, simbólica: “Eu queria que minha mãe morresse antes de mim” ou, ainda, “Eu queria não que minha mãe morresse, antes de mim” [poderia querer outra coisa? ]. Mas, o obsessivo bruto, usando expressão de Lacan, se enreda nesse enredo: é tomado de culpa, medo, autorecriminação, goza com Isso. Por isso, depreende-se a assertiva negativa que comporta a presença vazia do real, saída do sujeito desse emaranhado, pela via da negativa da negativa, podendo-se depreendê-la do que disse: “Eu queria que minha mãe não morresse antes de mim”. Escrever, em sua ficção, duas ausências em associação direta, distantes do Eu na sentença, é marcar a falta da falta em “não morresse”, ponto em que a morte, marca do Real [e da pulsão de morte freudiana] toca a interdição do simbólico [o não].
Na transmissão, escrever sobre esse sujeito contemporâneo que é substância gozante, corpo sexuado que, sujo, antes e depois do sexo, constata que a morte não é o pior, que o pior é a Certeza de que irá desaparecer, é lançar mão da amarração signo, significante e letra em torno dessa presença vazia do real, saída do sujeito obsessivo ali justamente onde ele não pensa, nos restos dessa escrita.
Referências Bibliográficas
FREUD, S. Obras Completas. Observações Sobre um caso De neurose Obsessiva (“o homem dos ratos”, 1909). Vol. 9. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2013. p. 9-85.
LACAN, J. O mito individual do neurótico, ou, A poesia e verdade na neurose (1952). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2008.
______. O seminário, livro 3: as psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997.
______. O Seminário, livro 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1999.
______. O Seminário, livro 8: A identificação (1961-1962). Recife: Centro de Estudos Centro de estudos Freudianos do Recife, 2003 – Publicação de Circulação interna.
______. O Seminário, Livro 23: O Sinthome (1975-1976). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
LECLAIRE, S. O obsessivo e o seu desejo. In: Desmascarar o Real, Lisboa: Assírio e Alvin, 1977.
SAFATLE, V. A paixão do negativo: Lacan e a dialética. São Paulo: Editora UNESP, 2006.
Vestígios do Dia. (The Remains of the Day, 1993). Direção de James Avory. Estados Unidos, Reino Unido
[1] Trabalho apresentado XVI Jornada Corpolinguagem/VIII Encontro Outrarte/IEL-UNICAMP, 16, 17 e 18 de novembro de 2016 – O Caso entre exceção e transmissão.
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